Curta nossa página


A vingança

Prato frio

Publicado

Autor/Imagem:
Cadu Matos - Foto Francisco Filipino

A vingança é um prato que se come frio. Cecília (para seus pais) ou Ciça (para o restante da espécie humana) que o diga.

O casamento de Ciça tinha subido ao telhado e se aproximava perigosamente da borda. Ainda não estava sentado ali, balançando as perninhas no abismo, mas quase. E, numa tarde, ela encontrou por acaso com Rafael, o Rafa, galinha assumido, marido de Eliana, a melhor amiga de Ciça.

Foram para um barzinho conversar. Ela chorando as pitangas com a crise conjugal, ele alimentando os cachorros que logo seriam soltos:

– Bebe mais, querida.

E mais tarde, quando ela já estava bêbada de tudo:

– Bebe mais uma, amor. Pra esquecer esse filho da puta, que não a merece. Você precisa de um macho que dê valor à mulher gostosa que você é!

Não houve drogas que a fizessem dormir, não foi um “Boa noite, Cinderela”. Foi antes um “Bebe todas, Cinderela”, um “Enche os cornos, Cinderela”, que conduziu a um “Vamos pra cama, Cinderela”. Foram. Não foi bom para ela; para ele, pouco importava, era mais uma caça abatida.

No dia seguinte, quando o porre passou, Ciça lembrava-se apenas vagamente do que tinha acontecido. Desorientada, procurou Rafa. Esperava ouvir algo como:

– Desculpe, Ciça, foi mal. Você tava bebaça, não devíamos transar. Só que eu também tava bêbado… Mas continuamos amigos, né?

Já seria alguma coisa. Em vez disso, ouviu o seguinte:

– Olhe, você queria, eu queria… Isso não precisa atrapalhar nossos casamentos. E quando quiser repetir, é só pedir.

Em seguida, ele mandou uma fala cuidadosamente ensaiada, que começava com uma paráfrase dos versos iniciais do samba “Mulher, toma juízo!”, de Paulo Vanzolini, e terminava com o mais comum dos lugares-comuns:

– Ciça, toma juízo. Mostra os dentes num sorriso, sei que você gostou. Somos todos maiores de idade, todos ciganos, todos artistas mambembes no palco improvisado do mundo… Coisas da vida.

Ciça engoliu em seco e foi embora logo. E decidiu dar o troco naquele galinha sem noção. Imaginem se ela, quase em coma alcoólica, tinha gostado de alguma coisa!

O primeiro passo foi convidar Eliana para uma noite de meninas, na casa de Ciça, regada a álcool. Enquanto as duas conversavam e viravam todas, decidiu modificar o plano. A ideia era deixar escapar “inadvertidamente” que havia transado com Rafa. Mas resolveu poupar-se e recorrer aos préstimos de André, que morava na casa ao lado. Era um carinha legal, sempre gentil com as mulheres. Ela sabia por experiência própria. Uma deliciosa experiência, diga-se, que ajudara a levar seu casamento para o telhado. “Aposto que ele e Eliana vão gostar um do outro”, pensou. Era uma aposta arriscada, podia não rolar nada, mas se rolasse…

– Eliana, faz um favor? Passa na casa do André, aqui ao lado, e pede um pouquinho de sal. Aliás, pergunte se ele não quer jantar e beber com a gente. Ele está descasado, livre, leve e solto… – e deu um risinho malicioso.

André não veio. E nem Eliana. Ficou por lá mesmo, sem bagagens, mas com as muitas armas de sedução de uma mulher experiente. Uma semana depois, Rafa procurou Ciça, transtornado:

– Sabe que Eliana saiu de casa? Foi visitar você e só voltou pra pegar as coisas dela. Está morando com um amigo seu, um tal de André. Pode dizer o que aconteceu na sua casa? – indagou, num tom entre ansioso e desconfiado.

Era a bola pingando na área que Ciça tanto esperava. Meteu o pé:

– Rafa, toma juízo. Mostra os dentes num sorriso. Somos todos maiores de idade, todos ciganos, todos artistas mambembes no palco improvisado do mundo… Coisas da vida – e concluiu, impiedosa, parafraseado mais um verso do samba de Vanzolini:

– Corno que não ri não precisa dente!

Publicidade
Publicidade

Copyright ® 1999-2026 Notibras. Nosso conteúdo jornalístico é complementado pelos serviços da Agência Brasil, Agência Brasília, Agência Distrital, Agência UnB, assessorias de imprensa e colaboradores independentes.