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Quarentenados

Presente dos céus

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Autor/Imagem:
Cadu Matos - Foto Francisco Filipino

José estava quarentenado, sem emprego, sem dinheiro, sem vida social – que no caso dele, evangélico, praticamente se limitava ao convívio com os irmãozinhos e irmãzinhas no templo. E, sobretudo, estava sem mulher, subindo pelas paredes. Ele sabia que masturbação é algo natural, mas sentia-se culpado até a medula quando batia umazinha. E se o prazer era passageiro, a culpa permanecia, sentada na beira de sua cama, olhando feio pra ele e balançando as perninhas.

Maria não estava quarentenada, sua devoção à obra missionária era mais forte que o temor ao coronavírus. Todos os dias, portando uma Bíblia, máscara, luvas e muito álcool em gel, batia de porta em porta para anunciar que trazia uma mensagem do Senhor Jesus para o(a) morador(a). Mas à noite era outra história. Antes de se converter, ela tivera uma vida sexual intensa, e, rolando na cama, tocava-se enquanto lembrava, sem falsos pudores, de antigos amores. E fazia isso sem um pingo de culpa, consciente de que sua devoção e seu apostolado compensavam qualquer pecado da carne.

Certo dia, Maria tocou a campainha da casa de José. Ele atendeu e olhou para a moça com olhos famintos.

– Bom dia. Trago uma mensagem do Senhor Jesus para o irmão. Posso…

– Entra – cortou José, com voz rouca.

Os dois sentaram-se num sofá, começaram a conversar e logo identificaram interesses comuns, além da religião. Entre eles estava o tesão que sentiram um pelo outro desde que se viram. Meia hora depois do encontro, as roupas de José e Maria, a máscara, as luvas, o tubinho de álcool em gel e a Bíblia jaziam espalhados pelo chão.

Hoje, ele encara a quarentena com um novo ânimo. Continua sem emprego, sem dinheiro, sem vida social – mas Maria o visita umas quatro vezes por semana, para levar-lhe a Palavra e outras coisinhas. Os três dias restantes, ela dedica à obra missionária. José aceita o esquema mas morre de ciúmes – vai que ela encontra outro crente no atraso que nem ele? Nas vezes em que ousa falar disso, Maria sempre responde:

– Cala a boca, irmãozinho, e me beija gostoso!

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