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Troll

Quando o corpo exigia, procurava um bordel

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Autor/Imagem:
Cadu Matos - Foto Francisco Filipino

Evaldo estava com 45 anos mal vividos: muita droga, muita birita, muitas brigas de rua e de bar. Mas bem poucas mulheres, que seu jeito grosseiro e as feições deformadas pelos socos dos adversários não faziam dele exatamente um Casanova.

Ele não ligava muito. Quando o corpo exigia, procurava um bordel. Fora disso, sempre podia fazer sozinho, assistindo a um vídeo pornô. Seu prazer verdadeiro consistia em investir contra uma mulher acompanhada e, ao primeiro ensaio de recusa, baixar a porrada no cara – marido, namorado, pai, irmão, pouco importava.

Sem falar nas taradinhas, fisicamente atraídas por homens feios – quanto mais medonhos, melhor. Ele era a respeito, elas eram portadoras de algo chamado teratofilia, palavra que vem do grego teras, monstro, e philia, amor. Sua atração pela monstruosidade, pelo grotesco, era um presente dos deuses para Evaldo. Tão logo percebiam suas feições abrutalhadas, insinuavam-se, tremendo de desejo, indiferentes aos olhares de espanto e censura dos transeuntes.

“Algumas eram bem bonitas”, lembrou Evaldo. ”Ótimo enquanto durou”.

Mas nunca durava muito. Saciado o tesão, após dois ou três dias de trepação desenfreada em algum quartinho sórdido, a tarada ia embora. Mas agora isso raras vezes acontecia, pois ele aprendera a reconhecer os primeiros sinais de impaciência da parceira e, antes de levar um pé na bunda, dava-lhe uma surra e a expulsava. Ela chorava, mais de dor que de tristeza, e ia embora sem olhar pra trás. Eram as regras do jogo, taras e fetiches podem ser violentos e até mesmo letais.

Certo dia, Evaldo ouviu alguém mencionar algo chamado trolagem. Não conhecia o termo, e, sempre curioso, foi pesquisar. Verificou que a palavra vem de troll, ser monstruoso dos mitos escandinavos. Já a trolagem (ou trollagem) não tem nada de monstruosa, é antes uma pegadinha, uma brincadeira de mau gosto – por vezes de péssimo gosto – feita entre amigos reais ou virtuais. Trata-se de uma prática cada vez mais difundida graças à internet.

Evaldo riu com desprezo.

– Esses trolls virtuais são uns babacas! – disse a si mesmo. – Ficam em casa, criando vídeos falsos ou coisas assim, para encher o saco de amigos, conhecidos ou mesmo gente que nunca viu mais gorda. Queria ver eles encararem um troll de verdade. Um troll analógico!

“É uma bela definição para meu caso”, pensou. “É, troll analógico até que soa bem”.

Tirou a roupa toda e deitou na cama do quartinho que alugava, pago com a grana de bicos e pequenos furtos. Vivenciou.com alívio o crescimento de todo o corpo, até se tornar novamente um monstro de feições absolutamente disformes, caninos pontiagudos, mãos e patas com garras imundas e afiadas.

Tocou os espinhos que agora lhe cobriam o peito e as costas e comentou:

– Tão gostoso descansar por algum tempo com à minha forma original…

E adormeceu.

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