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Marina Dutra

Quando o corpo fala o que a alma silencia

Publicado

Autor/Imagem:
Marina Dutra - Texto e Foto

O excesso de peso como linguagem emocional

Em um mundo que valoriza a produtividade e a aparência, o excesso de peso costuma ser tratado apenas como uma questão de calorias, dietas e exercícios físicos. Embora esses fatores sejam importantes, cada vez mais especialistas reconhecem que a relação com o peso corporal é muito mais complexa do que parece. Em muitos casos, o corpo também carrega histórias, emoções e experiências que não encontraram outra forma de expressão.

Quem nunca recorreu à comida em um momento de tristeza, ansiedade ou solidão? Após um dia difícil, uma discussão familiar ou uma perda significativa, é comum buscar conforto em alimentos que despertam sensações de prazer e acolhimento. O problema surge quando esse recurso emocional se torna frequente e passa a ocupar um lugar central na vida da pessoa.

Não se trata de falta de força de vontade. Reduzir o excesso de peso a uma questão de disciplina pode gerar culpa e aumentar ainda mais o sofrimento. O comportamento alimentar é influenciado por múltiplos fatores: genética, hormônios, ambiente, cultura, hábitos familiares e, também, aspectos emocionais.

Muitas pessoas relatam perceber que ganharam peso após períodos marcados por luto, separações, traumas, sobrecarga ou grandes mudanças na vida. Em alguns casos, o excesso de peso pode surgir como uma tentativa inconsciente de proteção. Para outras pessoas, ele parece representar força diante das responsabilidades excessivas. Há ainda situações em que a comida ocupa o lugar de um afeto não recebido, funcionando como alívio temporário para dores emocionais difíceis de nomear.

Isso não significa afirmar que todo excesso de peso tenha origem emocional. A realidade humana é complexa e multifatorial. Seria injusto e simplista ignorar fatores biológicos, metabólicos e sociais envolvidos nessa questão. Porém, também é limitante olhar apenas para o prato e esquecer de quem está por trás dele.

Talvez a pergunta mais importante não seja apenas “Por que esta pessoa come?”, mas também “O que ela sente?”, “O que carrega sozinha?” e “De quais dores tenta se proteger?”.

Vivemos em uma sociedade que ensina a esconder sentimentos, mas o corpo frequentemente encontra maneiras de expressar aquilo que a mente tenta silenciar. Ansiedade, frustrações, medo, rejeição e solidão nem sempre aparecem em palavras. Às vezes, manifestam-se em sintomas, hábitos ou padrões repetitivos que parecem difíceis de mudar.

Por isso, o cuidado com o peso não deve estar baseado apenas na busca por um número menor na balança. A verdadeira transformação acontece quando a pessoa amplia sua consciência sobre sua própria história, seus vínculos, suas emoções e suas necessidades mais profundas.

Olhar para si com gentileza não é acomodação; é o primeiro passo para mudanças sustentáveis. Quando entendemos a função que determinados comportamentos exercem em nossa vida, ganhamos mais recursos para construir novas formas de cuidado.

Nesse caminho, a terapia pode desempenhar um papel fundamental. Muitas vezes, existem dores, crenças e padrões emocionais que não conseguimos acessar sozinhos. Buscar ajuda profissional não é sinal de fraqueza, mas de coragem e responsabilidade consigo mesmo. A terapia oferece um espaço seguro para compreender a própria história, ressignificar experiências e desenvolver recursos mais saudáveis para lidar com os desafios da vida.

Afinal, quando o corpo fala, talvez não precise apenas ser controlado. Talvez precise, antes de tudo, ser escutado.

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Marina Dutra – Terapeuta Integrativa

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