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História verídica

Quando o dinheiro sujo cria platô numa colmeia

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Autor/Imagem:
José Seabra - Foto Pimenta Filho

O jornalismo em Brasília tem muitas histórias, e esta, relembrada em pleno ano eleitoral, começou como começam as coisas que não deveriam começar por ser doce demais para ser verdade. Foi lá pelos anos 70 e 80, quando redação ainda cheirava a chumbo quente e cafezinho requentado, que alguém resolveu provar o mel da colmeia, que não era pouco. Farto, viscoso, escorria pelos dedos com a promessa de que ninguém jamais notaria o gosto azedo que viria depois.

Mas notaram. E o primeiro a se lambuzar foi o zangão. Engoliu tudo no apagar das luzes, como quem sabe que a conta chega, mas aposta na escuridão para escapar do garçom. Nesse caso, porém, tardou mas não escapou. O mel virou fel, e o zumbido fez-se silêncio constrangedor nos corredores onde antes se pregava a liturgia da notícia.

Depois vieram os pneus. Prometeram resistência, sustentação, estrada longa. Mas esqueceram o aço, ou simplesmente o tenham vendido no meio do caminho. O que sobrou foi borracha mole, que ao primeiro sol virou bagaço. Rodaram, rodaram, até que a própria mentira perdeu tração. E quando a verdade encostou, não havia freio que segurasse o desmonte.

Na sequência, surgiu o painel eletrônico como símbolo da modernidade, da precisão, da informação em tempo real. Contudo, bastou um curto-circuito, um fio desencapado de ética, uma faísca de ambição mal calibrada, e ruiu. O Tempo, Senhor da Razão, manteve o tic-tac dos ponteiros enquanto tijolos amassados com barro eram vendidos a preço de ouro como se fossem relíquias de um templo que nunca existiu. Era só fachada. E como toda fachada, desmoronou ao primeiro vento mais sério, transportando a toga e a gravata italiana para trás das grades.

São Paulo assistiu. E a capital da República, também. E a penitenciária ganhou um hóspede ilustre, desses que antes discursavam sobre moralidade com a gravata bem alinhada e o verbo firme. Porém, lá dentro, o eco é outro. Não há editorial que resista ao som metálico de uma porta se fechando.

Mas o pior não foi a queda dos que venderam a alma por moedas carimbadas. Foi a mancha que respingou nos que nunca se venderam. Jornalistas limpos, de caderno gasto e consciência intacta, viram seus nomes misturados à lama, como se o ofício fosse cúmplice do desvio. Não é. Nunca foi. Jamais será.

De repente, na tentativa de limpar toda a sujeira, surge o escovão. Grande, barulhento e performático, ele esfrega-se na superfície daquilo que chamam de “crise pontual”, como se décadas de imundície pudessem ser removidas com espuma institucional e notas oficiais. Paralelamente, ergue-se uma nova matriz sobre um platô de odor acre, que, transitando no mesmo mundo virtual, tenta parecer sólida sobre os corpos sensuais de jovens mulheres exalando perfume francês. Entretanto, quem passa por perto, ainda sente que o aroma é estranho. E cheiro de coisa podre não se apaga com verniz.

No fim das contas, a lição é antiga, embora teimem em ignorá-la. Em 56 anos de jornalismo aprendi que dinheiro sujo não compra silêncio, mas apenas prazo. E quando o prazo vence, não há colmeia, pneu, painel ou escovão que salve reputações construídas sobre areia movediça. Os que resistem ficam. São os que escrevem com a tinta rara da decência, mesmo quando o papel é áspero e o vento sopra contra. Porque no jornalismo, como na vida, o que sustenta não é o mel fácil, mas a integridade difícil. E essa, felizmente, não azeda.

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José Seabra é CEO fundador de Notibras

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