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GLÓRIA DOMÉSTICA

QUANDO O MITO PASSA NO SUPERMERCADO

Publicado

Autor/Imagem:
Daniel Marchi - Francisco Filippino

Acompanhado da esposa, ele havia ido a uma consulta no hospital da rede do plano de saúde. Na faixa etária deles, o plano já estava bem caro. A sorte é que, além de uns apartamentos que comprara na Zona Norte havia muitos anos, cujo aluguel recebia, o salário da TV ainda caía certo todo quinto dia útil do mês. Preservava o privilégio de pertencer ao cast da emissora que vinha demitindo vários colegas seus, veteranos. Mas ele não. Tinha seu público, dava audiência, recebia prêmios, era tido como um dos maiores atores de sua geração. Se bem que, entre o público mais jovem, desses acostumados mais a ver TV on-demand e streaming — que diabo de expressões complicadas, pensava — ele passava bastante despercebido.

Sentara-se ali como um perfeito anônimo, com seus óculos de grau e barba por fazer, e tentou amenizar a espera olhando a televisão que exibia um telejornal. O volume estava baixo. As legendas, em closed caption, tinham erros e muito atraso. Entreteve-se com as imagens, que mostravam bairros pobres da cidade, sacos de lixo boiando em água lamacenta, uma chuva, ruas alagadas, uma repórter, vestindo capa de chuva, entrevistando uma autoridade.

Em volta dele, pessoas tossiam. Ele achou que devia ter aceitado a recomendação da mulher para ir de máscara. Mas, intimamente, outra razão pesava: e se, de máscara, ninguém notasse que era ele? Nos últimos tempos, percebera isso com mais frequência. Ainda era respeitado, ainda era citado como referência no teatro e na TV, mas o assédio espontâneo rareava. As novas celebridades, os tiktokers, os influenciadores digitais — nada disso ele sabia direito do que se tratava — haviam diluído a fama de muitos.

Por isso, foi com um misto de curiosidade e espanto que percebeu como a moça que o atendera na recepção tentava chamar a atenção das colegas para ele, cochichando, dando risinhos, depois de descobrir quem ele era. Ela estava certa de conhecê-lo de algum lugar.

Aquela impressão de familiaridade confusa, que pode nos invadir até quando cruzamos com um rosto muito comum, embora expressivo, na praia, na rua ou no transporte público. Mas ela investigara no celular e descobrira sua longa carreira de sucessos.

Ele, com seus veneráveis cabelos brancos, sentado ao lado da esposa, olhou para o monitor de TV onde os pacientes eram chamados tendo seus nomes lidos por uma voz feminina robótica, e até imaginou como era esquisito ver escrito ali seu nome verdadeiro, e não o nome artístico pelo qual era conhecido havia tantos anos. Estranhou mais ainda quando soou a voz robótica:

— Cleverson Moreira, consultório seis.

A esposa o olhou, tocou no seu braço rapidamente e disse “vamos”. Antes que terminassem de levantar, a recepcionista, uma outra funcionária do local e duas moças vestidas em uniforme verde, provavelmente técnicas de enfermagem, chegaram até eles, um pouco constrangidas.

— Desculpe, mas o senhor é o Claude Mayer, não é?

Quantas e quantas vezes ele já passara por isso. A vaidade de artista, levemente remanescente em seu ser, encarava essas situações entre um sentimento de pequeno incômodo e uma íntima satisfação pessoal. Afinal, ao longo dos anos, nunca deixara de ser reconhecido em situações cotidianas. E deixar de sê-lo poderia significar que estava completamente liquidado e que restara apenas a história.

Brincalhão, respondeu:

— Pois é, acho que sou eu mesmo. Embora, ali no monitor, tenham chamado Cleverson Moreira, que está indo ver o doutor…

— Ah, então é o senhor mesmo. Eu nem acreditei quando vi! Fui até ver se o senhor tinha perfil nas redes sociais, só pra confirmar… Mas não achei.

O velho ator queimou outra cápsula de vaidade. Olhou a interlocutora, metida num terninho preto, os cabelos cacheados castanhos soltos sobre os ombros, uns olhos verdes, o queixo harmônico. Talvez tivesse uns 25 anos. As outras três, menos belas, mas tão jovens quanto. Sentiu-se querido a julgar pelos sorrisos que as moças lhe dirigiam. Perguntou-se intimamente se ainda eram seu público. Quando a outra se manifestou:

— A minha avó e minha mãe amam o senhor! Outro dia estava vendo com elas uma novela antiga que o senhor fez, aquela em que o senhor morava numa vila de pescadores, que colocaram na íntegra no streaming…

Deu um sorriso amarelo. Sua esposa sorriu discretamente. E teve que intervir.

— Obrigada, meninas, mas precisamos ir para a consulta.

— Claro! Desculpem… Estejam à vontade. E, por favor, se precisarem de algo, nos falem.

Saiu da consulta aliviado, apenas com um pedido de exame. Estava bem, na medida do possível. Ao sair, uma outra funcionária do local, mais velha, aproximou-se:

— Senhor Claude Mayer, permite-me tirar uma foto com o senhor?

Sacou o celular e, sem que a mulher do velho ator fizesse qualquer gesto, entregou-lhe o aparelho e ainda pediu:

— Da cintura para cima, por favor. Ai, nem acredito que encontrei Claude Mayer!

Ao sair do hospital, Claude — ou devíamos chamá-lo de Cleverson? — contentava-se intimamente. Ainda que a jovem o houvesse reconhecido somente em função de um trabalho muito antigo, lá no início de sua trajetória de galã, o pedido de selfie da outra funcionária representou quase dar um autógrafo. Pensou em como os tempos eram diferentes.

A esposa olhava discretamente para ele. Podia ler, nos seus olhos azuis-acinzentados, uma satisfação íntima, bem peculiar.

Seguiram seu caminho até a estação de metrô, onde pegariam a condução de volta para casa. Antes, a mulher disse que queria passar no mercado. Ele, que nutria uma feroz antipatia por supermercados, mas jamais contrariava sua esposa, entrou com ela. Como ela se adiantou um pouco, ele parou em frente à vitrine de uma banca de jornais e revistas que funcionava numa pequena loja na entrada do mercado.

Uma revista estampava, enorme, a foto colorida de Zíngara Salcedo.

Zíngara… saboreou de novo aquele nome. Tinha dúvidas se era artístico, ou se correspondia ao que a bela atriz trazia em sua carteira de identidade. Acima da foto, em letras vermelhas, lia-se a chamada:

“A nova unanimidade do cinema nacional sofreu colapso nervoso após as filmagens”.

Zíngara havia protagonizado um filme em que interpretava uma mulher com problemas existenciais e muitos conflitos internos, oprimida psicologicamente por um marido cruel e indiferente. Fizera grande sucesso, recebera indicações a prêmios. Claude Mayer — definitivamente, o chamaremos pelo pseudônimo — fizera uma participação especial e “afetiva” no filme.

Afetiva. Nome criativo para inserir um ator veterano num projeto, dar-lhe um papel expressivo, mas curto — um juiz, um avô, um patrão, alguém que faria uma ou duas cenas — e ainda garantir ao produtor executivo que o cachê não pesaria tanto no orçamento. E lá se foi Claude, às seis horas da manhã, filmar a externa. Numa inusitada locação: o cemitério de São João Batista. Ele representaria um padre que aconselhava a protagonista após o enterro de uma tia.

— O que ela mais queria era vê-la feliz, minha filha. Escolhendo um bom marido, realizando-se na vida.

Era mais ou menos isso, fácil de decorar e bem rápido para filmar.

Não bastasse o atraso colossal da grande estrela Zíngara Salcedo, e todas as suas exigências para começar a cena, que colocaram os produtores e contrarregras em estado de beligerância, ela ainda chegou sem as falas decoradas e precisou de um tempo para se reconectar à personagem.

— Ai, gente, ontem estava num resort, fotografando a coleção de uma marca que eu fui contratada para representar. Graças aos milhares de seguidores que eu tenho… Não dá pra fazer cara sofrida ainda, né? Mas eu valorizo o tempo de vocês, viu? Vou mandar trazer uma aguinha extra para os figurantes.

Nas filmagens, a estrela tratara-o muito respeitosamente, chamando-o de mestre, de referência, de mito. Fora até muito simpática.

Na primeira reunião de elenco, embora Claude não tivesse entendido direito o sentido de sua presença ali, afinal era só uma ponta, ela se sentara ao seu lado e falara com aquela voz de confidência que certas pessoas usam quando sabem que estão sendo observadas.

— Mestre, eu estou arrasada, sabe? Já pensando em me internar numa clínica, tirar uns dias só pra mim. O senhor me entende, né? Eu me entrego muito aos personagens. A dor deles dói na minha carne também. O ator, pra ser bom, precisa se jogar. Sofrer o que eles sofrem, se alegrar quando eles se alegram… E o papel tem que ter densidade, precisa ser desafiador. Fazer uma diferença na obra.

Se não for assim, eu nem aceito sair de casa.

Claude quase se enterneceu pelo sofrimento atroz relatado por Zíngara. Achou-a praticamente sincera, mas não lhe deu nenhum conselho. Recordou dos inúmeros papéis que havia feito no cinema, no teatro e na TV. Mesmo não crendo, agradeceu a Deus que tantos tivessem passado por sua carreira, se entrelaçado à sua vida, sem terem deixado qualquer dano permanente.

Nenhum rei deposto, nenhum advogado corrupto, nenhum marido traído, nenhum criminoso arrependido, nenhum pai vingativo, nenhum poeta bêbado, nenhum galã de camisa aberta morando numa vila de pescadores cenográfica havia ficado morando dentro dele por mais tempo do que o estritamente necessário. Entravam, faziam seu serviço, diziam suas falas, recebiam a luz certa, o corte certo, a lágrima certa, e depois iam embora.

Era assim que devia ser.

Nos dias seguintes começavam os estudos para o próximo trabalho. O ator precisava saber a hora de sair de cena. Não apenas do palco, do set, do capítulo. Sair de si mesmo também. Ou voltar para si mesmo. Não sabia explicar com clareza. Mas havia nisso uma técnica, uma higiene, talvez uma forma de sobrevivência. De conservar a sanidade.

Zíngara, não. Zíngara parecia gostar de deixar as portas abertas. Dizia isso nas entrevistas, com uns olhos enormes, um modo um pouco rouco de falar, como se cada palavra viesse de um porão emocional cheio de baús guardando coisas terríveis. “Eu não interpreto, eu atravesso e sou atravessada”, lera Claude certa vez, numa chamada de internet que lhe aparecera por acaso.

— Atravessar o quê?! Espero que ela se conserve sempre atenta ao atravessar a rua… — pensou. Atravessar era o que ele fazia quando precisava cruzar a cidade para chegar a uma locação, quando enfrentava camarim apertado, figurino malpassado, diretor inseguro, produtor aflito, colega atrasado bancando a prima donna. Aquilo, sim, era atravessar. Sua atuação era mais prática. Em novela havia capítulo no dia seguinte. No teatro, a plateia voltava na próxima sessão. No cinema, ninguém podia esperar a alma amadurecer enquanto a equipe inteira olhava o relógio. E havia, depois de tudo, casa. Uma rotina tranquila, previsível.

A mulher voltou do mercado com mais sacolas do que prometera levar. Comprara frutas, café, queijo, sabão em pó e um pacote de biscoito que ele não comia havia anos, mas de que sempre gostara. Ao vê-lo parado diante da revista, perguntou:

— É aquela moça?

Ele demorou um instante para responder.

— Sim. Contracenei com ela. Ou quase isso.

A esposa aproximou-se da vitrine e leu a chamada sobre o colapso nervoso.

— Parece bonita.

— É bonita.

— Boa atriz?

Claude fez um gesto largo com a mão. Não era exatamente um desdém.

— É possível.

A mulher o conhecia o suficiente para saber que aquele “possível” carregava um discurso inteiro, talvez um julgamento implacável.

Não insistiu. Entregou-lhe uma das sacolas, a mais pesada, e seguiram para a saída do mercado. Era desses papéis menores que a vida, de quando em vez, dá até aos grandes atores. Não reclamou.

Atravessaram a calçada em direção à estação. Foi então que ele viu o carro.

Grande, preto, de vidros totalmente escuros. O motorista desceu primeiro, deu a volta, abriu a porta traseira. Zíngara Salcedo saiu de óculos escuros, calça clara, camisa bege-areia, uma bolsa pequena demais para carregar qualquer coisa útil, o celular preso entre os dedos compridos.

Era menor e mais delgada do que parecia nas fotografias. Portava uma palidez elegante, talvez natural. Ao seu lado, uma moça falava sem parar. Certamente a assessora, lembrava dela do dia das filmagens. Sempre procurando garantir que Zíngara não precisasse fazer coisas de simples mortais, como abrir uma garrafinha de suco.

Claude ficou parado por um segundo. A esposa percebeu. Seguiu o olhar dele.

— É ela?

— É.

Zíngara olhou para os lados, como quem procurava alguém. Por um instante, seus olhos passaram por Claude. Passaram mesmo. Não pousaram. Não o reconheceram. Ou reconheceram tarde demais, quando já era necessário seguir adiante.

Ele sentiu um pequeno desconforto, que se apressou em converter em desprezo.

Ali estava a grande artista, a mulher que não saía de casa se o papel não tivesse densidade, a sacerdotisa do sofrimento, descendo de carro com chofer para talvez dar uma entrevista sobre humildade, dor e entrega. Ele, Cleverson Moreira, nome lido por uma máquina no hospital, carregava uma sacola de mercado antes de pegar o metrô com a esposa. Mas Claude Mayer, o ator, o mito, a referência, talvez ainda esperasse que ela viesse em sua direção, abrisse os braços, chamasse-o de mestre.

E ela veio.

Talvez o tivesse reconhecido pelo modo como ele sustentava o corpo. Talvez a assessora lhe houvesse apontado. Talvez, por puro instinto profissional, ela houvesse percebido que aquele velho de barba por fazer e sacola na mão não era apenas um velho de barba por fazer e sacola na mão.

— Mestre! — disse ela, aproximando-se com uma alegria que parecia sincera, embora um pouco atrasada. — Que encontro maravilhoso!

Beijou-o no rosto. O perfume era caro, excessivo, como certas luzes de camarim. Cumprimentou a esposa dele com delicadeza.

— Nós trabalhamos juntos — disse Zíngara, voltando-se para a mulher. — Quer dizer, eu tive essa honra de aprender com esse monstro sagrado.

A esposa sorriu.

— Eu sei.

Claude percebeu que Zíngara olhara rapidamente para a sacola. Foi um olhar mínimo, quase nada. Um átimo. Mas, para sua irritação, sentiu vontade de explicar que passara no mercado apenas porque a esposa quisera, que não era exatamente uma rotina sua, que havia saído de uma consulta, que estava tudo bem, que continuava sendo Claude Mayer apesar do café, do queijo, do biscoito e do desodorante. Mas não explicou nada.

— Vi sua entrevista — disse ele.

— Ah, não me fale nisso. Eles exageram tudo. Mas foi pesado mesmo. Esse filme me atravessou de um jeito que eu ainda estou tentando entender.

Claude olhou para ela. Teve vontade de dizer que os filmes não atravessavam ninguém, no máximo atrasavam o almoço, desorganizavam o sono e, quando muito bons, deixavam uma lembrança decente. Mas conteve-se.

— É preciso cuidado — respondeu.

Zíngara tirou os óculos. Seus olhos estavam levemente úmidos ou apenas muito bem maquiados.

— O senhor acha?

— Acho.

— Eu me entrego demais.

— Percebi.

Ela riu, sem saber se aquilo era elogio ou advertência. Talvez as duas coisas. A assessora tocou-lhe o braço. Havia pressa, uma entrevista, uma gravação, um compromisso qualquer onde alguém lhe perguntaria novamente sobre a personagem e ela diria, com palavras um pouco diferentes, a mesma coisa.

— O senhor vai à entrega do prêmio, não vai? — perguntou Zíngara. — Estamos concorrendo.

— Vamos ver.

— O senhor tem que ir. Todo mundo fala do senhor. É uma honra estar na mesma categoria.

— A mesma categoria?

Aquilo atingiu Claude de um modo inesperado. Ele e Zíngara, lado a lado, disputando o mesmo prêmio, como se houvesse entre eles uma equivalência objetiva, uma linha reta ligando cinquenta anos de trabalho a uma carreira que ainda fazia propaganda de resort, perfume e sofrimento psíquico. Sentiu desprezo por ela, pela categoria, pelo prêmio, pela indústria, por si mesmo. E, no fundo desse desprezo, uma satisfação quase infantil. Ainda concorria. Ainda estava ali. Ainda podia vencer.

— Boa sorte — disse.

— Para nós, mestre — respondeu ela, com um sorriso bonito.

 

 

 

Zíngara foi embora. Entrou num prédio envidraçado ao lado da estação, onde provavelmente daria a entrevista anunciada por alguém que passaria a manhã chamando-a de intensa e visceral. O carro preto partiu ou ficou esperando, Claude não reparou. A esposa ajeitou a sacola no braço.

— Vamos, querido?

Desceram para o metrô.

Na escada rolante, Claude teve vontade de comentar alguma coisa espirituosa. Dizer que a moça sofria muito, mas sofria com motorista. No seu tempo, era diferente. O ator era um estigmatizado. Ou que os personagens modernos exigiam internação, enquanto os antigos se contentavam com chegar cedo e ensaiar bastante. Não disse. A esposa talvez risse, talvez não. Às vezes ela ria por amor, não por achar graça. E ele, que sempre soubera medir o riso da plateia, odiava perceber quando o riso vinha de piedade conjugal.

No vagão, sentado entre a esposa e uma moça que via vídeos no celular sem fone de ouvido, Claude pensou no que dissera a Zíngara. “É preciso cuidado.” Parecia conselho de velho. Conselho de quem já não tinha, ou jamais tivera, coragem de se atirar. Talvez fosse isso mesmo. Talvez Zíngara não estivesse inteiramente errada. Talvez, em algum tempo remoto, ele também tivesse se entregado assim, ou imaginado se entregar. Mas a vida fora exigindo outra coisa. Havia sempre uma próxima cena, um próximo capítulo, uma próxima marca no chão, uma próxima fala, uma próxima maquiagem. Não se podia enlouquecer sempre.

Chegaram em casa. Ali era o lugar onde ninguém o chamava de Claude Mayer, exceto quando queriam brincar. A filha dizia papito. O filho o chamava de véio. Os netos diziam vô. A esposa, quase sempre, dizia Cleverson. Claude Mayer era quem transitava por espaços fictícios. Cleverson Moreira era quem tirava o sapato, procurava os óculos, reclamava da pressão da água, cochilava no sofá, esquecia nomes, fazia exame, segurava sacola de mercado.

Não sabia qual dos dois era mais verdadeiro.

Meses depois, a entrega do prêmio chegou.

Recebera o convite com pompa, papel bonito, e-mail de assessoria, telefonema de confirmação. A produtora do filme insistiu. Seria importante a presença dele. Zíngara iria. O diretor iria. Haveria tapete, imprensa, fotos, transmissão, discursos. Ele estava indicado numa categoria de atuação sem separação entre protagonistas e coadjuvantes, homens e mulheres, jovens e velhos, vivos e sobreviventes. Achou a fórmula moderna e confusa. Mas gostou de estar nela.

A esposa perguntou se ele queria ir.

Ele disse que não sabia.

Na verdade, sabia. Tinham combinado uma viagem curta para a praia com os filhos e os netos. Nada sofisticado. Uma casa alugada onde ele podia se dividir entre a piscina e a areia. Um restaurante meio rústico nas redondezas onde sempre iam. O riso solto dos netos que desejavam muito a companhia dos avós. A filha insistira. O filho, que raramente pedia qualquer coisa, havia dito:

— Véio, dessa vez vai com a gente. Prêmio tem todo ano.

Prêmio não tinha todo ano para ele. Não mais. Mas foi.

Na noite da cerimônia, estava de bermuda, camisa velha, chinelo, sentado na sacada, ouvindo o mar e o barulho dos netos dentro de casa. A televisão da sala transmitia o evento. Ele fingia não acompanhar. De tempos em tempos, entrava para pegar água, uma castanha, um guardanapo, qualquer coisa que lhe permitisse olhar a tela sem admitir que olhava.

Zíngara apareceu algumas vezes. Linda, muito maquiada, cabelo preso, vestido escuro, ombros de fora. Sorria para as câmeras com aquele ar de quem já ensaiara a espontaneidade do discurso. Quando anunciaram a categoria, ela endireitou o corpo na cadeira.

Claude viu. Todos viram. A esposa, sentada no sofá, olhou para ele.

— Vem cá.

— Já vou.

— Cleverson!

Ele entrou.

Na tela, surgiram os indicados. A imagem de Zíngara chorando, com fundas olheiras, numa cena do filme. Depois a dele, no cemitério, vestido de padre, dizendo à protagonista que a tia queria vê-la feliz. Achou-se velho demais. Achou-se bom. Não saberia dizer em que ordem.

O apresentador abriu o envelope.

— E o prêmio vai para… Claude Mayer.

Houve um segundo de silêncio dentro da casa. Depois os netos gritaram. A esposa levou as mãos ao rosto. A filha correu para abraçá-lo. O filho bateu palmas como se estivesse num estádio. Claude ficou em pé, meio sem jeito, com um copo de água na mão.

Na televisão, a câmera procurou Zíngara. Ela sorriu. Sorriu bem. Era atriz. Mas havia, no canto da boca, um pequeno desarranjo, uma decepção rápida, quase infantil, que nenhuma pesada maquiagem conseguiria obliterar. Talvez tivesse preparado um discurso. Talvez acreditasse mesmo que aquele papel a atravessara tanto que o mundo lhe devia alguma compensação. Talvez apenas quisesse ganhar, como todos querem, mesmo os que discursam sobre arte, entrega, generosidade.

Como Claude não estava presente, o diretor recebeu por ele. Disse palavras bonitas. Chamou-o de lenda. Referência. Mestre. Um patrimônio afetivo do cinema e da televisão. Claude ouviu aquilo de bermuda, na sala quente de uma casinha de praia, com uma neta agarrada à sua perna e o barulho de uma panela vindo da cozinha.

— Vovô ganhou! Ê vovô! — gritou o menor.

Ele sorriu. De canto de boca.

A esposa aproximou-se e ajeitou a gola torta da camisa velha, como se fosse possível prepará-lo para subir ao palco dali mesmo.

— Está feliz?

Claude olhou para a televisão. Na tela, ainda aparecia seu nome artístico em letras grandes. CLAUDE MAYER. Abaixo, o nome do filme.

Em algum lugar, talvez nos registros do hospital, nos boletos do plano, nos contratos antigos, nos documentos, ele continuava sendo Cleverson Moreira. Ali, naquela sala, era pai, marido, avô, distração das crianças, motivo de orgulho por alguns minutos.

Pensou em Zíngara, sentada na plateia, vencida, obrigada a sorrir para a vitória de um velho ausente. Sentiu uma satisfação feia, pequena, humana. Logo depois, sentiu vergonha dela. Mas não muita.

— Estou. Meu papel poderia ter sido maior — respondeu.

Do lado de fora, o mar batia nas rochas, no escuro, indiferente a prêmio, a cinema, aos nomes e aos velhos atores que, depois de uma vida inteira representando, ainda precisavam passar no supermercado antes de voltar para casa.

…………

Daniel Marchi, editor-executivo de Notibras, é professor, advogado e escritor carioca.
Autor de “A Verdade nos Seres” (poemas) e “Território do Sonho” (contos, no prelo).
Instagram: @prof.danielmarchi

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