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RIO SUBURBANO

RACHEL LIMA TRANSFORMA O SUBÚRBIO CARIOCA EM CRÔNICA

Publicado

Autor/Imagem:
Rachel Gomes de Lima - Francisco Filippino

Viver nos Subúrbios ainda nos permite ter experiências bem peculiares, trágicas até, se não fossem cômicas. Basta um olhar mais cuidadoso pra encontrar pessoas e situações que a gente não vê em qualquer lugar do mundo. O Rio de Janeiro é um lugar diferenciado que nos proporciona uma relação de amor e ódio incrível.

Considero-me uma intelectual orgânica, uma mulher que cresceu nos Subúrbios de Lima Barreto e quis entender sua origem, assim como a influência do meio em sua existência. Frequentei o ambiente acadêmico, faço pesquisas e leciono em universidade. Sou proletária.

Trabalhadora celetista. Simples assim. Ao contrário do que os alunos imaginam, não tenho vida de luxo. Lavo passo cozinho, cuido da família e trabalho, acumulando tarefas mil como a maioria das mulheres deste país.

Cresci andando de transporte público. Na graduação vivia entre ônibus e Kombis, além das caminhadas a pé. Já na pós-graduação, eram ônibus, metrô e barca. E hoje são ônibus, van e metrô. E essas experiências nem sempre são tão agradáveis, mas muitas vezes são peculiares. Tenho carro, mas dirigir na cidade também é um exercício dolorido para a sanidade mental. É falta de educação do coleguinha e muita moto fazendo “bi bi bi”. Chego mais rápido mesmo, muitas vezes, andando de metrô.

A minhoca de metal vai lotada nos horários de rush. Outro dia uma grávida entrou empurrando todo mundo em pleno horário das 7 da manhã. Ao oferecerem lugar, não quis se sentar, mas exigia que ninguém a empurrasse… Uma família composta por duas crianças de uns 10 e 11 anos, mais a mãe e a avó ficaram horrorizadas ao entrarem e serem empurradas para o meio do vagão a cada abertura de portas… segurei um dos meninos antes que ele fosse sugado por axilas e bolsas penduradas sob sua cabeça.

Há outros problemas significativos no metrô lotado: de solturas de gás metano, as brigas verbais e até físicas na corrida para se sentar nas estações iniciais de cada linha. Se você é mulher vai sofrer com homens querendo se “achegar” nos vagões comuns (pra não usar outro verbo). Se escolher o vagão feminino, vai lutar com os intensos cheiros de perfumes, e com os empurrões que as mulheres dão para entrarem e ocuparem espaços inimagináveis… o que também pode gerar grandes conflitos e proclamações de palavras de “baixo calão”. Acredito que o metrô só não ande mais cheio que o trem. Logo, não empurrar alguém em um ambiente que mais parece um navio negreiro, é algo praticamente impossível.

Faz muito tempo que não pego trem, mas acompanho as notícias de sua precarização pelo noticiário matinal. O Rio de Janeiro que já possuiu uma das melhores redes ferroviárias do mundo nos longínquos oitocentos, não se modernizou e padece com a degradação das linhas férreas por falta de investimento ou roubo de peças e cabos por alguns indivíduos, assim como puladas dos muros e das roletas para evitar o pagamento que são compensados nos altos preços dos modais pagos por passageiros idôneos que sofrem com a superlotação e até mesmo a violência.

Costumava ir à nutricionista em um bairro próximo a minha casa. O prédio, quase esquina com a Rua José Bonifácio, tão narrada pelo querido Lima Barreto, fica praticamente em frente ao Norte Shopping, na Avenida Dom Hélder Câmara (Av. Suburbana para os íntimos).

O ponto de ônibus conta com lojas de rua e camelôs. E por ali passam pessoas com diferentes objetivos, classes e gostos. Eis que em um destes dias do nada começou uma discussão que assustou muitos transeuntes: Um camelô batendo boca com outro homem. Eles circulavam pelo ponto de ônibus se agredindo verbalmente. Citavam palavrões que eu nem mesmo conhecia. O homem que parecia uma pessoa em situação de rua, atravessava a Dom Helder Câmara aos brados, sem se preocupar com os carros que passavam. O camelô por sua vez, ia atrás também discutindo. Quando o homem voltava para encarar o camelô, este recuava e vice-versa. Eu tensa, esperando a qualquer momento a briga rolar solta, vi que se tratava apenas de dois seres que se estranhavam, e que só latiam, mas não atacavam.

Isso mesmo, eu lembrei automaticamente de dois cachorros que só latiam para defenderem o território, mas não atacavam com receio de perderem na briga física.

Há outros casos peculiares dos subúrbios cariocas em pleno século XXI que pretendo narrar futuramente para não deixar essa crônica tão longa. Em outro ponto da Dom Helder Câmara, por exemplo, meu marido e eu passávamos de carro e presenciamos um homem e uma mulher que realmente saíram as vias de fato partindo, agarrados um nos cabelos do outro, para o meio da pista… Nós quase paramos para assistir como terminaria a questão, mas resolvemos ficar só no quase mesmo.

Apesar de tudo, ainda me sinto em casa. Não me adapto às formalidades da Zona Sudoeste (criada recentemente no RJ para segregar a população) e nem nos condomínios luxuosos do resto da cidade.

Nada como um dia após o outro nos subúrbios cariocas…

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Rachel Gomes de Lima (@rachel.lima.prof), escritora, é doutora em História e professora universitária carioca.

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