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Entre o vinho e o biscoito

Ranhuras do acaso

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Autor/Imagem:
Eduardo Cesario-Martínez - Foto Irene Araújo

Mal entrei, aqueles olhos gastos me chamaram a atenção. Adelaide, ainda não a conhecia, me pareceu pura consternação, como se carregasse bagagem além de suas possibilidades. Tive ímpeto de me aproximar, apesar da timidez que me acompanha desde que Lucimara me abandonou por um antigo namorado, que se tornou caso e, então, despidos de qualquer pudor, reataram publicamente. Não quero remoer minhas dores, mas, talvez, apenas colocá-lo a par sobre minha persona desprovida de camuflagens.

Maria Adelaide Rodrigues de Almeida, enquanto recolhia pratos e talheres sobre a enorme mesa rústica, percebi naquele instante, era dona de um sexto sentido próprio de animais. Ela voltou o olhar para mim e, sem esboçar ranhuras em sua face, mãos habilidosas, saiu de cena como se fosse malabarista. Acompanhei com os olhos aquela mulher até que ela cruzou o corredor, que, supus, dava para a cozinha. Aguardei-a na certeza de que logo retornaria para pegar o restante dos objetos deixados sobre a mesa, porém me enganei. Uma outra moça e um rapaz terminaram aquele serviço.

Uma semana depois, encontrei Adelaide na fila do supermercado. Eu carregava uma garrafa de vinho, que pretendia beber sozinho em mais uma noite solitária enquanto assistia a uma das infindáveis séries na televisão. Ela, um pacote de biscoito recheado e uma garrafa de refrigerante barato. Tentei disfarçar, não queria trocar palavras nem com a moça do caixa, quanto mais com alguém praticamente desconhecida.

Baixei a cabeça e tentei fixar meu pensamento nos meus pés, praticamente nus, chinelo de dedo, unhas enormes e descuidadas. Por que não damos importância às unhas dos pés? As dos dedões, de tão imundas, pareciam de gente que vive com os pés no chão. Minha vergonha foi interrompida por um toque no ombro.

— Tu é amigo do seu Ricardo, né!?

— Desculpe.

— Tu é amigo do seu Ricardo, me lembro de você.

— Ricardo?

— Sim, Ricardo Gouveia.

— Sim, conheço o Ricardo. E quem é você?

Adelaide bem que poderia me jogar na cara algum desaforo, me xingar de cínico ou dissimulado. Não, nada disso, mostrou-se polida.

— Sou a Adelaide, sou empregada do seu Ricardo.

— Ah, sim! Desculpe, agora que estou me lembrando. Como você está?

— Tô indo. E você?

— Indo também.

O assunto parecia irremediavelmente condenado ao epílogo, quando algo começou a me incomodar. Culpa, meu amigo. E foi esse sentimento que me empurrou para algo que me causou perplexidade.

— Adelaide, você gosta de vinho?

— Vinho?

— É.

— Sabe que eu nem sei direito. Acho que nunca provei.

— Quer experimentar? Este aqui é dos bons.

Gente, de onde saiu aquele convite? Como é que é? Eu, que relutantemente havia saído da minha toca naquele sábado, estava ali, sorriso nos lábios, convidando uma praticamente desconhecida para tomar vinho? O que mais poderia acontecer? Torci para que ela declinasse.

— Tu tem certeza?

Aquela era a dica para que eu pudesse inventar uma desculpa, falar que precisava resolver algumas coisas na rua. Faltou-me o de sempre, coragem.

— Claro.

— Pois vou aceitar o seu convite.

Não descarto que a mulher percebeu o meu constrangimento com aquela situação. Mesmo assim, fez questão de prosseguir com a pantomima e, sorrindo com os sisos, me desconcertou de vez.

— Mas como é que tu se chama mesmo?

— Vicente.

E foi assim que, duas ou três taças de vinho depois, Adelaide entrou na minha vida.

……………………

Eduardo Cesario-Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).

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