Curta nossa página


No divã

Recalque de uma paixão

Publicado

Autor/Imagem:
Eduardo Martínez - Foto Irene Araújo

Leopoldo fazia questão de se fechar como ostra. Foi o modo como ele havia encontrado para não revelar as fragilidades que lhes eram próprias. Se fosse ator, seria escada para a estrela de peça ou película.

Deitado no divã, o sujeito buscava se entender aos olhos atentos de uma psicóloga.

— Você me acha recalcado?

— Você se considera recalcado?

— Talvez.

— É assim que você se enxerga?

— Sou sem graça.

Não foi o filho favorito, muito menos o neto. Enjeitado pelas garotas na adolescência, imaginava-se na pele de Augusto, espécie de queridinho da rua. Não que fosse feio, mas a comparação parecia-lhe inevitável.

— Augusto? E quem é Augusto?

— Um amigo. Quer dizer, nunca fomos amigos, éramos mais como conhecidos.

— Conhecidos?

— Bem, na verdade, fomos amigos, mas a inveja consumiu nossa amizade. Não por culpa do Augusto, que era um cara legal. Mas aquela aparência… Sabe?

— Como assim?

— É que penso que ninguém poderia ser tão bonito aos 15, 16 anos. Isso é muito injusto com as outras pessoas, que estão passando por um monte de problemas. Sabe? Insegurança, espinhas na cara, hormônios que transformam crianças fofas em monstros.

— Monstros? Você se acha um monstro, Leopoldo?

— Bem, hoje não mais. Quer dizer, sei que não sou tão bonito, mas aprendi a conviver com o que vejo no espelho. Mas naquela fase… Puxa, como foi difícil!

— Parece que você ainda não superou isso.

— Não, não! Já! Quer dizer, não sei ao certo. Cruzei com o Augusto na semana passada, logo que saí daqui. Acredita?

— E como foi esse reencontro com o seu amigo?

— Bem, na verdade, não foi um reencontro. Creio que ele nem me reconheceu. Foi nessa padaria aqui embaixo. Fui comprar cigarros e lá estava ele tomando café. Ele me olhou, mas foi só uma passada de olhos. Sabe? Não tem aquela coisa de dar uma conferida no ambiente?

— Sei.

— Pois é, foi assim que aconteceu. Depois fiquei bravo comigo mesmo por não ter ido lá falar com ele. Mas talvez tenha sido melhor assim. Sei lá.

— A beleza do seu amigo ainda o incomoda?

— Engraçado é que ele nem está tão bonito assim. Ainda conserva aquele charme. É, por que estou fazendo isso?

— Fazendo o quê?

— Mentindo pra mim mesmo.

— Como assim?

— O Augusto continua lindo. Puxa vida! Acho que até mais.

— E isso ainda te incomoda?

— Talvez. Ninguém poderia ser tão lindo daquele jeito. Pelo menos não fora das telas de cinema.

— Você odeia o seu amigo por isso?

— Odiar? Não! Jamais! Eu sempre amei aquele desgraçado!

……………………

Eduardo Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).

Compre aqui

https://www.joanineditora.com.br/57-contos-e-cronicas-por-um-autor-muito-velho

Publicidade
Publicidade

Copyright ® 1999-2026 Notibras. Nosso conteúdo jornalístico é complementado pelos serviços da Agência Brasil, Agência Brasília, Agência Distrital, Agência UnB, assessorias de imprensa e colaboradores independentes.