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Paraíba

Rede pública de saúde registra primeiro parto em homem trans

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Autor/Imagem:
Malu Oliveira - Foto Divulgação

O nascimento da pequena Iara marcou um momento histórico para a saúde pública da Paraíba ao se tornar o primeiro parto gerado por um homem trans na rede estadual de saúde. A bebê é filha de Daniel Valentim e de Gisele Castro, uma mulher trans, sendo fruto de uma gestação cuidadosamente planejada pelo casal. A chegada da menina coincidiu com as celebrações do Dia do Orgulho LGBT, trazendo visibilidade para a constituição de novas configurações familiares baseadas no afeto.

Moradores da cidade de Esperança, no interior do estado, Daniel e Gisele iniciaram o acompanhamento médico na cidade de Campina Grande. A gestação foi classificada como de alto risco logo no primeiro mês, após o pai receber o diagnóstico de trombose, uma condição circulatória que exige cuidados rigorosos em gestantes. Durante esse período inicial, eles contaram com o suporte do ambulatório especializado para pessoas transexuais que é vinculado ao Hospital de Trauma da região.

Apesar do acompanhamento médico regular, Daniel enfrentava sentimentos de insegurança e o receio de sofrer preconceito por ser o pioneiro nessa vivência na unidade de saúde de origem. O desconforto aumentou significativamente quando o casal foi informado de que a médica obstetra responsável por todo o pré-natal não faria o procedimento cirúrgico, deixando o momento do parto sob a responsabilidade do plantonista que estivesse escalado no dia.

Em busca de um ambiente mais acolhedor, o casal pesquisou alternativas e descobriu que o Hospital da Mulher, em João Pessoa, realizava mastectomias em homens trans e possuía uma equipe devidamente capacitada para o atendimento desse público. Com a ajuda da coordenação do Espaço LGBT da capital, Daniel e Gisele conseguiram a transferência de vaga no oitavo mês de gestação. O novo médico revisou os exames anteriores, assegurou que a saúde de Daniel estava estável e confirmou que a maternidade estava pronta para acolhê-los de forma digna.

A transição para a paternidade e maternidade exigiu sacrifícios biológicos complexos, já que ambos precisaram interromper seus respectivos tratamentos de transição hormonal para viabilizar a gravidez. De acordo com Gisele, o processo de suspensão dos hormônios masculinizantes e feminilizantes pode gerar disforia, que é um forte desconforto psicológico causado pelo retorno temporário de características físicas indesejadas nos corpos de cada um. Após uma primeira tentativa malsucedida em 2023, a gravidez foi confirmada no final de 2025.

A experiência no Hospital da Mulher superou as expectativas do casal, sendo descrita por Daniel como um momento inesquecível, cercado de respeito e livre de preconceitos por parte de toda a equipe médica. A chegada de Iara foi celebrada com grande entusiasmo e apoio por ambas as famílias dos braços paterno e materno. Para as lideranças do Espaço LGBT Clementino Fraga e para os novos pais, este nascimento simboliza a vitória do amor e reforça que os laços familiares legítimos se sustentam na união e no respeito mútuo.

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