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Ordens do dia

Redentora perdeu e só precisa se render

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Autor/Imagem:
Arimathéia Martins - Foto de Arquivo

De boa lembrança para aqueles que pensam o Brasil como pátria apenas para meia dúzia, o 31 de março de 1964 talvez tenha sido mais ou menos para os que se locupletaram com os que se apossaram do poder. Entretanto, a data é indiscutivelmente de péssima memória para todos que sempre optaram pela vida em liberdade. Cidadão que ainda dispõe do Cartão de Identificação do Contribuinte (CIC), não tenho opinião formada sobre a ditadura. Na verdade, prefiro engolir o que penso antes que me façam engolir o que acho, mesmo sem pensar.

Melhor assim, principalmente porque, bons ou ruins, todos os generais e demais envolvidos com esse período negro de nossa nação já estão no andar de cima. Portanto, contra ou a favor, não falo de quem não pode se defender. Todavia, tenho a obrigação de usar como referência todos os que morreram apoiando ou lutando contra a Revolução de 64. Considerando que a única revolução possível é dentro de nós, o que mais tenho medo dos levantes é com a primeira cabeça que rola. Como disse o ex-senador francês Victor Hugo, ela abre o apetite do povo.

Ademais, qualquer revolução tem suas contradições. Normalmente elas costumam fazer em dois anos a obra de cem anos, mas perde em dois anos a obra de cinco séculos. Como todas as revoluções que desejo começam em mim, não me imagino acordando em um 31 de março tentando decifrar o recado de uma daquelas modorrentas e medonhas ordens do dia, minha preferência, após 21 anos de perversão política, é o caminho da paz, da harmonia, da liberdade absoluta, consequentemente da democracia abusivamente plena.

Lá se vão 62 anos entre o 31 de março de 1964 e o 31 de março de 2026. Não há o que comemorar. Passou, e que não volte nunca mais. Mesmo sabedor de que ainda falta muito chão para que consigamos pavimentá-la sem fissuras, digo, sem margem de erro para cima, para baixo, para a direita e para a esquerda, que não há alternativa fora da democracia. O sistema que defendo pode ser o pior dos regimes políticos, mas não conheço nada melhor do que ele. É dele que partem as leis da maioria em respeito aos direitos das minorias.

Aos que pensam diferente, vale lembrar que democracia não se limita ao direito de votar. Sintetizando-o como o direito de viver com dignidade, o sistema democrático não significa o oposto da ditadura, mas a causa dela. Embora seja um regime que nos impede de ter um governo melhor do que merecemos, pelo menos ele tenta fazer justiça sem a obrigação de criar santos. É justo que um, outros ou muitos sejam contra. Faz parte do jogo político da democracia.

Paradoxal é pedir a volta da ditadura militar no Brasil e criticar as ditaduras da Coreia do Norte, da Hungria, de Cuba, da Rússia e da Bielorrúsia. Pior ainda é, mesmo simbolicamente, se associar às falsas democracias de Israel e dos Estados Unidos de Donald Trump. A democracia dos meus sonhos não corre, mas sempre chega segura ao objetivo. Torço para que chegue logo o dia em que direita, esquerda, centro e todos os demais espectros políticos entendam que a democracia precisa ser vista como um patrimônio da nação brasileira. Tomara que esse dia não seja 1º. de abril.

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