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Mundo

Reino Unido entra num longo túnel escuro sem saída

Foto/Reuters - ABr
Marc Arnoldi

A sexta-feira, 29 de março de 2019, era a data prevista para o Brexit, a saída do Reino Unido da União Europeia. Era, mas não foi. Após uma sucessão de revés, de votos contrários, de negociações, de discursos… os ingleses ainda são europeus. No mínimo até 12 de abril. Talvez por mais tempo. A Câmara dos Comuns, o equivalente à Câmara do Deputados, passou as últimas semanas a votar “não”. Ao acordo que Theresa May, a Primeira Ministra, tinha negociado com os europeus, e depois a todas as outras soluções, até mesmo às apresentadas pelos próprios congressistas. A última tentativa, nesta sexta, também se soldou por um “não”.

Os britânicos achavam que o mais difícil tinha sido a entrada. Não imaginavam o quanto penosa seria a saída. A União Europeia nasceu logo ao sair da segunda guerra mundial para, justamente, evitar que haja uma terceira. Pelo menos entre europeus. O impulso principal veio da França e da Alemanha. Para o General De Gaulle, herói francês da resistência e da retomada do prestígio de sua nação após a derrota acachapante de 1940, não fazia sentido que povos de origem comum estivesse em campos opostos nos dois confrontos mundiais. É bom lembrar que o nome “França”, que substituiu a “Gália” dos famosos Asterix e Obelix, foi trazido pelos francos, no século V. E que, como o ainda atesta a cidade de Frankfurt, os francos eram germânicos.

Apesar de ter sido hospedado em Londres logo após a subjugação da França no início da guerra, De Gaulle nunca foi um anglófilo. Seus embates com Winston Churchill foram lendários, o Premier inglês ficava furioso com o topete deste generalzinho com físico de aspargo que não passava de um mendigo na capital inglesa. O altivo francês esnobava, de seu metro e noventa, a bola rechonchuda sempre em volta com uma nuvem de charuto. Mas não lhe negava respeito e gratidão. Como Churchill não foi reeleito pelos ingleses no término da guerra, de volta em Paris, De Gaulle tratou os britânicos como um francês o pode fazer. A rixa entre os insulares e os do continente separados por somente algumas dezenas de quilômetros ilustra os livros de história do século XI e a invasão de Guilherme o Conquistador até as guerras napoleônicas.

De Gaulle vetava a entrada dos britânicos na Comunidade Econômica Europeia. A ilha teve que esperar a morte do General, em 1970, para começar a negociar sua entrada, que foi efetiva em 1973. Efetiva, em parte, porque os herdeiros do “Império no qual o sol nunca se põe” sempre tiveram um estatuto separado. O maior símbolo talvez seja a não-adoção da moeda única, o Euro, que significava o abandono da Libra, e teria deixado o poder de decisão ao banco central sediado na Alemanha. A União Europeia, com suas instâncias executivas em Bruxelas, é uma entidade acéfala. Ninguém manda. É preciso uma reunião de todos os membros, com votação à unanimidade, para obter um posicionamento comum. Se já é difícil obter consenso num casamento, imagina-se numa família de 28 com temperamentos tão diferentes quanto alemães e italianos, ingleses e franceses, portugueses e gregos.

E os políticos não ajudam. Cada um, em seu, País, construiu uma imagem negativa da Europa. Quando a decisão comunitária era boa, era creditada à ação do Chefe de Estado. Quando não era popular, a culpa era jogada na conta de Bruxelas. As populações passaram a ver a UE como a propriedade de burocratas não-eleitos, lavradores de regulamentos obscuros mas com força de lei e imunes a qualquer reclamação popular. O sentimento anti-europeu se difundiu, apoiado por partidos de esquerda que julgam a União financista demais, e de direita nacionalista que consideram que ela é um ataque a soberania nacional.

David Cameron, o então Primeiro Ministro inglês, apostou e perdeu organizando o referendo de junho de 2016. A Inglaterra rural fez a balança pesar um pouco mais para a saída da União Europeia. Quase 52 %. Pouca coisa, que surpreendeu a muitos. As pesquisas indicavam o contrário, mas é sabido que as pesquisas têm dificuldade metodológica em identificar tendências fora dos grandes centros urbanos. Grande número de ingleses acordou com ressaca. Com sentimento de não ter levado o referendo com a seriedade necessária. O voto não é obrigatório no Reino Unido, e se a taxa de participação foi significativa (72,21 % dos inscritos), ela foi menor justamente nos locais onde a permanência na EU venceu, como a cidade de Londres, a Escócia e a Irlanda do Norte.

Hoje, o país está em frente a uma parede. Os europeus estão agora sinalizando que a saída mais provável é um Brexit sem acordo. E já no dia 12 de abril. A França, que tem uma fronteira terrestre com o Reino Unido desde a construção do túnel, teria que celebrar acordos bilaterais. Os próprios britânicos estarão de novo confrontados ao eterno conflito na Irlanda, ilha dividida entre uma província do Reino (a Irlanda do Norte) e a República da Irlanda, que permanece na União Europeia. Theresa May está mais frágil de que nunca me seu cargo. A rainha Elizabeth II certamente preferiria estar preparando os festejos de seu aniversário de 93 anos no próximo dia 21 de abril. Mas até lá, os dias serão tumultuados.

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