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Dois mundos

Retórica americana joga a China no colo da Rússia

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Foto/Imagem:
Bartô Granja, Edição

A tensa relação entre China e EUA em áreas como economia, cibersegurança, defesa e política externa com uma especialista do Instituto Estatal de Relações Internacionais de Moscou.

A China rejeitou um plano da Organização Mundial de Saúde (OMS) para uma segunda fase de uma investigação sobre a origem do SARS-CoV-2, que inclui a hipótese de que o vírus poderia ter escapado de um laboratório chinês. Horas depois, a Casa Branca afirmou que estava “profundamente desapontada” com a decisão da China.

Durante a campanha para a Casa Branca em 2020, o democrata Joe Biden desdenhava a hipótese de o novo coronavírus ter sido liberado acidentalmente ou deliberadamente por um laboratório chinês, enquanto o presidente Donald Trump defendia essa teoria.

Agora, o presidente Biden ecoa as afirmações de Trump de que o SARS-CoV-2 pode ter sido criado artificialmente e vazado do laboratório de Wuhan. Mas esta não é a única área em que a administração democrata está seguindo os passos do ex-presidente republicano.

A Sputnik Brasil conversou sobre a tensa relação entre as duas maiores potências do mundo em diversas áreas como economia, cibersegurança, defesa e política externa com Anna Kireeva, professora associada de Estudos Orientais e pesquisadora associada do Centro de Estudos Chineses Integrados e Projetos Regionais do Instituto Estatal de Relações Internacionais de Moscou (MGIMO, na sigla em russo).

Mantendo a linha trumpista
O ex-presidente Donald Trump (2016-2021) iniciou uma dramática ruptura nas relações dos EUA com a China, com declarações bombásticas, imposição de sanções e controles de exportação. Biden foi eleito afirmando que os EUA voltariam a ser o que eram antes de Trump, mas na prática, com relação à China, o democrata tem adotado uma postura muito parecida com a do seu antecessor.

Anna Kireeva recorda que Biden adotou durante a campanha de 2020 uma retórica muito mais branda com Pequim do que Trump, mas, uma vez eleito, o democrata “manteve os elementos básicos da política de Trump em relação à China”.

“No que se refere às principais medidas adotadas, na esfera econômica, na sua maioria, Biden segue a linha política que já foi adotada pelo governo Trump. Na política externa, a gente vê particularmente a continuação dessa política, com algumas correções pontuais. Mas o mais importante é que o governo Biden está mais disposto a trabalhar com os aliados, e levar em conta os seus pontos de vista e preocupações, para atraí-los ao objetivo comum de confrontar a China, em praticamente todas as esferas relevantes”, explica a especialista.

Segundo Kireeva, com Biden, a retórica anti-China diminuiu, com o presidente norte-americano inclusive afirmando que Pequim é o principal parceiro estratégico de Washington, mas todas as medidas nas esferas econômica e político-militar ficaram inalteradas, “todas as tarifas introduzidas pelo governo Trump seguem durante a administração Biden”.

Política e tecnologia
A professora do MGIMO afirma que o Congresso norte-americano tem atualmente duas grandes preocupações com relação à China: acabar com a suposta repressão aos muçulmanos uigures e outras minorias na região de Xinjiang e a necessidade que os EUA têm de manter a sua vantagem competitiva na área de alta tecnologia.

“Agora em junho foi aprovada uma nova lei sobre inovação e concorrência [nos EUA], que prevê a alocação de US$ 250 bilhões [aproximadamente R$ 1,3 bilhão] para que o país aumente o seu potencial na esfera da alta tecnologia e assim impedir que a China se torne a potência dominante” relembra Anna Kireeva.

Além do investimento local, Washington tem, desde o governo Trump, adicionado empresas chinesas à sua lista negra de sanções, que ficam proibidas de colaborar ou realizar qualquer tipo de negócio com outras organizações norte-americanas, ou nos EUA. A administração Biden ampliou o escopo da lista negra para proibir quaisquer negócios com empresas chinesas do complexo militar-industrial. Recentemente, a Casa Branca adicionou mais 14 empresas ao rol.

“Isto é, as medidas para reduzir a interação com empresas da China se expandiram. O governo [dos EUA] se preocupa com a eventual obtenção por parte da China da sua tecnologia de semicondutores e se esforça para fechar quaisquer brechas que existam, tanto nos EUA, quanto nos países aliados. Há uma pressão para que os aliados também deixem de cooperar com empresas chinesas. E devo dizer que aqui o governo [dos EUA] foi muito bem-sucedido”, comenta a especialista.

Por outro lado, a China vem se movimentando, corrigindo programas do seu próprio desenvolvimento econômico e tecnológico, com novo plano de cinco anos para sair da dependência que atualmente tem de algumas indústrias norte-americanas.

“[A China] tem a meta de até 2025, em áreas cruciais de alta tecnologia, produzir as principais tecnologias independentemente. No entanto, na prática ainda existem deficiências em tecnologias cruciais, em particular na esfera de semicondutores“, contextualiza.

Com relação ao setor militar, a professora afirma que a administração Biden ainda não possui uma estratégia definida. “Vemos que há um processo de revisão dessa política no Ministério da Defesa, no Pentágono. Está claro que o princípio será confrontar a China em todas as esferas, em todos os níveis, mas ainda não vimos nenhuma medida concreta”, afirma.

A retórica da administração Biden da luta da democracia contra autocracias, isto é, a China e a Rússia, tem consolidado a colaboração entre os dois gigantes, explica a professora, mas essa aproximação começou ainda no governo do democrata Barack Obama (2009-2017).

“O fortalecimento da cooperação entre a Rússia e a China em geral ocorreu como resultado das políticas das administrações norte-americanas, primeiro da administração Obama, em função da resposta que ele deu à Rússia nos eventos relacionados à Crimeia e à Ucrânia. Depois, a política de Trump em relação à China, que enfatiza a confrontação com Pequim. Nesse sentido, Rússia e China se sentem sob pressão norte-americana, se veem como objeto de diversas medidas restritivas, inclusive econômicas. Isso com certeza levou a uma maior interação bilateral, ao fortalecimento da cooperação na esfera político-militar, para a maior coordenação política”, explica Anna Kireeva.

Todavia, a especialista reconhece que é bastante difícil avaliar quais serão os limites dessa cooperação Moscou-Pequim. Ela diz que caso a Cúpula Rússia-EUA reduza as tensões entre os dois países ou mesmo leve a alguma cooperação seletiva, “então é bem provável que não haverá estímulos para que Rússia e China passem a uma cooperação militar mais séria e profunda”, caso contrário, “veremos a continuação e o aprofundamento de uma cooperação diversificada entre Rússia e China, inclusive em novas áreas”.

A professora do MGIMO imagina ainda outro cenário possível, caso os EUA coloquem mísseis de médio alcance na Ásia. Nesse caso, ela afirma ser muito provável um novo nível de cooperação na esfera da defesa antimíssseis entre a Rússia e a China.

“Aqui é provável a intensificação de ações conjuntas entre Rússia e China. No entanto, se não vermos medidas norte-americanas para que se entre em confrontação plena com a Rússia e a China, é pouco provável que Moscou e Pequim deem aquele passo a mais e formem uma aliança militar genuína, ou algum bloco militar rígido, que inclua obrigações de defesa”, conclui.

Guerra cibernética
Esta semana, agências de inteligência dos EUA emitiram um alerta conjunto acusando a China de atividades cibernéticas maliciosas e apresentaram mais de 50 táticas usadas por hackers supostamente afiliados a Pequim.

Anna Kireeva afirma que a cibersegurança é uma área onde o confronto entre as duas potências vai continuar por muito tempo, seja pela falta de legislação nesse setor, seja pela atual situação da relação Washington-Pequim.

“A dificuldade da situação atual é que não há mecanismos de regulamento dessa esfera ao nível global e ao nível bilateral entre a China e os EUA. Além disso, a dificuldade vem desde o governo Trump, quando foram quebrados muitos dos canais de comunicação [entre os dois países]”, comenta.

A especialista recorda que atualmente há pouca troca científica entre Washington e Pequim. Muitos vistos para pesquisadores chineses foram negados e poucas empresas chinesas seguem no Vale do Silício.

“A pandemia intensificou ainda mais todos esses processos e isso em geral levou à situação em que os países preferem os canais de comunicação que tinham antigamente e isso faz com que a cooperação na ciberesfera seja ainda mais perigosa no futuro, porque é pouco provável que esses canais serão restaurados”, alerta.

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