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Brasil polarizado

Rezar para Jesus e rejeitar São José é sacrilégio

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Autor/Imagem:
Arimathéia Martins - Foto de Arquivo

Conforme um dos mais periféricos ditos populares, assim como são as pessoas são as criaturas. Além de profundamente significativo, o ditado reflete a natureza, as ações e o comportamento de quem nos cerca. Ao aceitar a transformação do majestoso altar da igreja de Silas Malafaia em palanque eleitoral, o senador Flávio Bolsonaro pode ter jogado sua candidatura à Presidência da República na encruzilhada próxima à curva mais à esquerda do nada virtuoso Inferno de Dante.

Mais patética do que triste ou rocambolesca, a cena em que, acompanhado de uma ruma de políticos da extrema-direita, o filho 01 do ex-presidente Jair Bolsonaro se ajoelhou para uma oração especial diante de um imenso painel alusivo à Santa Ceia denota qualquer coisa, menos religiosidade ou desejo sério de uma conversinha com Jesus. Muito pelo contrário. Com todo respeito aos que pregam na Bíblia do pastor, mas, partindo de Silas Mala Cheia, nada pode ser considerado sério.

Como quem ajoelha tem de rezar, Flávio Bolsonaro deve ter sido informado previamente dos riscos e das consequências de entrar na zona do perigo. No Brasil polarizado, rezar para Jesus e não ter devoção e nem orar por São José e Nossa Senhora é um sacrilégio e uma desonra contra o que é considerado sagrado pelos demais brasileiros. Ou seja, os evangélicos sozinhos não elegem um prefeito. Nem mesmo um governador. Imagina um presidente.

Admitindo que minhas ilações são tão infundadas como a possibilidade de o eleitorado acreditar em Romeu Zema, caso o povo brasileiro esqueça o que viveu recentemente e decida eleger Bolsonarinho, a reza ao senhor da Assembleia de Deus Vitória em Cristo terá alcançado o objetivo. Silas Malafaia, que não dá ponto sem nó, será, enfim, o ministro da Economia do Brasil. Aí, em vez de 10% de dízimo, todos os 213,5 milhões de brasileiros terão a obrigação de ofertar ao pastor pelo menos 99,9% dos rendimentos.

Tudo em nome da gratidão, da fidelidade e do reconhecimento à dedicação, à solidariedade e ao altruísmo do religioso (?) em relação aos pobres. Ainda bem que eu também não falo nada com a seriedade exigida por aqueles que realmente se dedicam a ajudar o próximo. Fora da igreja que comanda, Malafaia é conhecido por afirmar que o Brasil não prospera por causa dos beneficiários do Bolsa Família. Logo ele que se beneficiou do dinheiro dos fiéis para comprar um jatinho novo.

Em outras palavras, Flávio Bolsonaro e Silas Malafaia são do mesmo balaio. Parafraseando a metáfora do alemão Arthur Schopenhauer, o filósofo do pessimismo, “A riqueza é como a água do: quanto mais bebemos, mais sede temos”. O mesmo se aplica ao poder. A busca cega por controle muitas vezes leva à vergonha ou ao esvaziamento moral, servindo como alerta sobre o alto custo da ambição. Antes que eu seja obrigado a conviver com a verdadeira natureza moral e ética de determinados indivíduos, busco algum alento em Nicolau Maquiavel, cuja frase “Dê poder ao homem e descobrirá quem ele realmente é” me inspirou a não votar em candidatos recomendados por alguém que use a Bíblia para pregar ostentação.

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