Livros
Rotina
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Tenho arrumado os livros.
Tiro de uma prateleira sem ordem e coloco em outra com ordem.
Sobram espaços vazios.
Reponho tudo no mesmo lugar.
Bagunço a ordem.
Desmonto prateleiras e chamo o homem dos móveis usados.
Vendo tudo.
Depois, vou até a loja e compro tudo de volta.
Nada me faz tão ocupado.
Tenho arrumado os livros.
Buscado espaços imaginários, espaços-livros, pois a eles estão destinados.
Livros e prateleiras são objetos que habitam locais de passagem.
Novamente troco tudo de lugar.
Desmonto as prateleiras; construo desafios.
Brigo com a síndica pelo cartaz exposto na parede da sacada.
“Proibido ler neste local”
Classifico de macacos os porcos fascistas do andar de baixo.
Jogo o chinelo e mato a barata no teto.
Na vitrola, Belchior grita:
“Eu não estou interessado em nenhuma teoria…”
Lanço os livros no hall de entrada; lá também é um local de passagem.
Não-territórios me perseguem feito praga.
A polícia chega.
Da janela, vejo os livros algemados entrando no camburão.
Penso:
“Enfim, conseguiram prender a imaginação!”.
Ligo o computador e plugo o mundo.
Tão bom ser Deus.
Bobagem.
Teclo e teclo e explico que meus livros estão algemados.
Ninguém me leva a sério!
Caraca!
A campainha toca.
A síndica entrega-me solenemente um cacho de bananas.
Lindas!
Amarelinhas com manchas pretas…
Monto rapidamente as prateleiras.
E coloco as bananas em exposição.
Tenho arrumado os livros,
Juro, mano!
Tenho arrumado os livros…
……………………………….
Gilberto Motta é escritor e vive na Guarda do Embaú, litoral de SC. Este conto integra o livro MIOLO, de 2005.