Hipocrisia tem limite
Se quer voltar ao poder, bolsonarismo precisa abandonar as mentiras
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Arte de exigir dos outros aquilo que não se pratica, a hipocrisia é, de fato, o ato de fingir qualidades, ideias e sentimentos que não se tem. No Brasil da hipocrisia, dizer a verdade é ser incoerente. Sem medo das conclusões de terceiros, é melhor ser verdadeiro e solitário do que viver em falsidade e estar sempre acompanhado. Em princípio, quero dizer em tese, independentemente de sua ideologia e coloração partidária, todo ser humano merece respeito e consideração. Os bolsonaristas fantasiados de extremistas não pensam assim. Por isso, é mais fácil respondê-los com eles a sapiência do deboche.
Juntar meia dúzia ou dez dúzias na orla de Copacabana e na Avenida Paulista para pedir a liberdade de Jair Bolsonaro, urrar pela prisão de Luiz Inácio e manifestar apoio a Donald Trump na guerra contra os aiatolás do Irã é a prova de que os hipócritas vivem ostentando o seu mundo perfeito, embora, na prática, o objetivo seja se vangloriar de suas vidas de mentiras. Depois desse povo do mal passar recibo da falta de cérebro, resta a mim e aos que têm tutano achar engraçado pessoas que não são exemplos para ninguém se achar no direito de opinar dar lição de moral na vida dos outros.
Imaginei que perderia meu tempo assistindo pela TV a “ruidosa” manifestações dos bolsonaristas por algumas praças do país. Me enganei. Passar algumas horas ouvindo as desconexas, descabidas e inoportunas palavras de ordem contra o que está definido desde meados do ano passado acabou por me dar a nítida impressão de que Satanás passou de todos os limites com a súcia que jura morrer de amores pelo Brasil. São tão amorosos que, antes de qualquer análise sobre o efeito interno, apoiaram integralmente o tarifaço sugerido pelo sem-emprego e sem mandato Eduardo Bolsonaro e efetivado por Donald Trump.
O mais relevante foi perceber que a menor preocupação dos organizadores da manifestação de domingo, entre eles o filho do ex-presidente e seus principais limpa-trilhos, atendia por Jair Bolsonaro. O objetivo escancarado era desqualificar Lula, seu governo e, principalmente, seus números eleitorais. Falam mal, mas só sabem falar dele. Me fez lembrar os críticos da TV Globo. Falam mal, mas não conseguem viver sem ela. Iguais aos “inimigos” do Flamengo. Ainda que para chorar ou sorrir com o resultado, não perdem um jogo do Mengão. Depois de Lula, o foco do protesto da extrema-direita foi o apoio mequetrefe à invasão norte-americana do Irã.
Aliás, apoiar uma guerra que nada tem de santa, defender um usurpador tupiniquim de poder e pedir socorro de longe ao presidente dos Estados Unidos talvez não seja o melhor caminho. Papo reto. As lideranças iranianas são assumidamente assassinas matam e mandam matar. Qual a diferença entre eles e quem os mata em busca de mais poder? Se os fanáticos por Jair Messias se acham tão superiores, por que não pedem apoio a Elon Musk ou demais aliados e se juntam aos soldados norte-americanos na luta armada contra os iranianos?
Sei que é demais, pois as guerras são demasiadamente graves para serem confiadas aos covardes, aqueles que combinam golpes contra a democracia, mas choram, esperneiam ou fogem do país ao primeiro sinal da Justiça. Se querem o mandato de Lula da Silva, lutem por ele nas urnas. Mas lutem com sabedoria, com a verdade, com tolerância e, obviamente, sem ódio. Se é isso que querem, aguardem outubro, respeitem a urna eletrônica, votem e mostrem ao povo brasileiro que raciocina os valores que não conseguiram mostrar entre 2018 e 2022.
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Mathuzalém Júnior é jornalista profissional desde 1978