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Chatos do zap zap

Sem a força das fake, cloroquina deixa de ser um remédio santo

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Foto/Imagem:
Mathuzalém Junior* - Foto de Arquivo

Minhas queixas quase diárias contra a atual administração pública não é má vontade com o governo, com Bolsonaro ou com o bolsonarismo. É apenas uma verbalização do que visivelmente está sendo mal conduzido e da desinformação que permeia o Brasil do mito. Ultrapassamos à marca de 600 mil mortos exclusivamente por conta de um vírus negado à exaustão e que poderia ser minimizado caso fosse levado a sério, como fizeram outros governantes. Especificamente sobre a Covid-19, o presidente da República é o principal culpado pelo caos que atingimos, mas comprovadamente não é o único. Um dia, o povo que passou boa parte da pandemia espalhando mentiradas e disseminando medicamentos ineficazes contra a doença também terá de responder pelo estágio alcançado.

E não será à lei dos homens, mas à de Deus, cuja benevolência certamente há muito se esgotou com a turma do cercadinho, também conhecida como “gado”. Foram tempos nebulosos, para não dizer catastróficos. Como cristão, nunca cheguei a desejar-lhes todo mal, mas veladamente já os mandei àquele lugar numerosas vezes. Também incontáveis foram as ocasiões em que, com alguma surpresa, comparava os chatos de hoje com os preocupados de ontem. A surpresa ficou por conta da descoberta de que são os mesmos vivendo em épocas diferentes. Em consultas informais, também conclui que esse povo está incluído em boa parte da lista de cidadãos que viraram número a partir da Covid.

Como a maioria da minha idade, usavam Neocid na cabeça com um pano enrolado para matar piolho, assim como corriam para os hospitais públicos para tomar injeção de Benzetacil quando o ranho escorria pelo nariz. Esses chatos sempre compravam e tomavam remédios sem receita médica. Recorriam ao querosene pra matar bicho-do-pé. À noite, enchiam o quarto de flitz e acendiam um durma bem para espantar mosquitos. O despertar normalmente era acompanhado de um café passado no saco, temperado com duas gotas de creolina para matar vermes. Iam na benzedeira quando acusavam o cobreiro e tacavam toucinho colado com fita para tirar bernes. Viveram heroicamente tudo isso, mas fugiram – e fogem – de uma vacina salvadora.

Além da morte, o pior da fuga foram os argumentos: ou o imunizante era chinês ou estava em testes. Como não tive qualquer preocupação em virar cobaia ao aceitar as duas doses, estou vivo, em paz e convicto de que morrerei, mas não desse mal. Quando fui informado da letalidade do vírus, reuni a família e alguns amigos próximos e preconizei: se preciso, vamos tomar creolina, gasolina, tubaína e, caso sejam receitadas por profissionais sérios, chuparemos até balinhas de naftalina. Em tom desafiador, acrescentei: que tomem cloroquina os que preferirem contrariar a ciência. E assim foi feito. Claro que as exceções são muitas, mas se tem um povo hipócrita nesse mundo é o brasileiro.

Eles tomam Rivotril e Fluoxetina com bebida alcóolica e até remédio proibido comprado por debaixo dos panos, mas fizeram doce quando chegaram as vacinas chinesas, inglesas, russas e norte-americanas. Compradas a peso de ouro, as indianas acabaram na CPI. Consumidores preferenciais dos medicamentos receitados pelo doutor Bolsonaro perderam a confiança na cloroquina e assemelhados. Alguns nunca tomaram, outros experimentaram e permanecem internados. Infelizmente, muitos cloroquinos partiram dessa para melhor. Continuo com medo do vírus, mas, devidamente vacinado, atesto que estou vivinho. Interessante é que esse mesmo pessoal cansou de tomar vacinas e nunca perguntou de onde elas vinham.

É a turma do zap zap, aquela que, conforme já escrevi, ama interpretar o que recebe, adora maquiar maldosamente o que envia, alcança orgasmos múltiplos quando atingem inimigos, mas odeia receber o que é contra o deus do Planalto. Principal arma dos mentirosos, as fakes não têm mais a mesma força de antes. Por isso, a cloroquina também perdeu o efeito. A rede virou mesa de boteco de periferia, balcão de padaria decadente, arquibancada de estádio de futebol de várzea e até ringue de luta livre para aqueles que veem o mundo político limitado à direita e à esquerda. O torcedor raiz do país morre de rir da imbecilidade alheia. É a lei da melhor escolha. A vantagem de quem escolhe bem é sofrer menos.

*Mathuzalém Júnior é jornalista profissional desde 1978

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