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Tia Dulce

Sinceridade cruel

Publicado

Autor/Imagem:
Eduardo Cesario-Martínez - Foto Irene Araújo

Tia Dulce nasceu sem filtros, sua especialidade é apontar defeitos nos outros sem o menor pudor. E o destinatário fica ali, cara de tacho, sem conseguir fingir até mesmo um mero sorriso amarelo. Talvez mais constrangidos fiquemos nós, família, como se a culpa ficasse impregnada nas bochechas.

Minha mãe, dona Rosa, por mais divorciada dessa ausência ético-moral da irmã, prefere se fazer de surda, provavelmente para não causar imbróglios, haja vista pertencer a uma estirpe de mulheres criadas para obedecer. Vovó que era sagaz, se controlava, torcia os lábios, levantava a sobrancelha esquerda, às vezes chegava a dar um ruidoso suspiro, virava-se e ia em direção à varanda e, quando questionada, dizia que precisava fumar.

— Vai aonde, mamãe?

— Vou pitar.

— Ué, mas a senhora não tinha parado?

— É, Dulce, mas percebi que vou infartar bem antes do cigarro me matar.

Sempre gostei desse humor ácido de vovó, como se cuspisse resiliência sobre quem pudesse colocar em dúvida a capacidade de sobrevivência de uma piauiense moldada pela fome. Queria ter herdado essa maneira de dar um tapa na cara da vida, porém, não tenho dúvida, minhas reações estão entre os desvios de olhares de mamãe e o choro contido do meu pai.

Quando estava com 14 anos, tive meu primeiro namorado. Nada sério, percebo hoje, o que não me impediu de imaginar que viveria para sempre com o Marcos. Ele havia se mudado para a nossa rua recentemente e logo chamou a atenção das meninas. Os garotos, obviamente, ficaram todos enciumados, quer dizer, menos o Luciano que, já naqueles idos, nunca teve receio de revelar a sua natureza. Saudade do meu amigo, que morreu de complicações semelhantes às de alguns ídolos da nossa geração.

Marcos, ah, Marcos! Não fui a primeira nem a segunda que o Marcos beijou. E quem importava? Ele era tão lindo, apesar de não tão confiável. Tornou-se um cretino quando percebeu o próprio poder de sedução. Por ironia, embarangou, gíria tão costumeira naqueles idos de 1985, 1986. Todavia, não quero falar sobre isso, mas de quando eu ainda era uma iludida e o levei a um almoço de domingo na casa da minha avó.

Quando estávamos de mãos dadas na rede na varanda, com a família acomodada em cadeiras e uma poltrona improvisada especialmente para vovó, eis que tia Dulce chegou. Ela cumprimentou a parentada e, ao passar por mim, deu aquela encarada no Marcos.

— Hum! Que rapaz bonito temos aqui! Qual é o seu nome, gato?

Marcos foi pego de surpresa, e eu devo ter apertado tanto a sua mão, que não duvido ter amassado seus dedos.

— Marcos.

— Marcos. Pois bem, Marcos, tu é muito gato, deve ter um monte de gatinhas correndo atrás de você.

Dava para ver a maldade no rosto da minha tia, e o Marcos, que deveria ser o amor de toda a minha vida, sorriu. Foi aí que tia Dulce se virou para mim e disse sem o menor pudor.

— Janaína, aproveita bastante, pois logo, logo o Alain Delon aí vai arrumar outra menina muito mais bonita.

Meus olhos se encheram de lágrimas, não chorei, quer dizer, não berrei, as lágrimas desceram pelo canto dos olhos. Todos ficaram boquiabertos, enquanto Marcos pareceu gostar do que acabara de ouvir. Vovó pegou um cigarro e acendeu. Ela estava certa, o enfarte a pegou muito antes do cigarro.

……………………

Eduardo Cesario-Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).

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