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Fio

Solo de clarinete

Publicado

Autor/Imagem:
Gilberto Motta - Texto e Foto

Comecemos pela ternura das mãos

Pelos detalhes dos dedos e unhas

Pelos girassóis dos teus cílios e cabelos

Contemplemos todas as lutas decisivas que perdeste

E os rios que então se abriram para novos deltas

E a boca travada pela sede dos tempos

E o susto da queda súbita ou o equilíbrio sobre o fio

Pedra no vitral estilhaçado

Consideremos também o teu caminho

E para ele haveremos que achar metáforas

Estrelas em céu de vagalumes

Por fim busquemos no infinito da memória

A chave para o texto ainda não decifrado

Enquanto isto cultivarei meu silêncio

E a ninguém direi dos pássaros e peixes que moram

Em tua tatuagem escondida no colo de teu céu

Na sala grande os retratos dormem

E os nomes que ninguém mais chamará

Insistem em vagar pela casa vazia

Na alma misteriosa voz que canta e habita

A chama repleta de luz com cheiro de alecrim

Talvez nada me contemple e nunca me complete

Por isso canto os dias lentos

Queria dizer-te dos pequenos encontros

E dos gestos anônimos de mais uma manhã

No instante em que na cozinha

O cheiro da cebola e do alho adere às mãos e à pele

Percutindo ao longe sinfonias delicadas

Solo suave e infinito

De um solitário clarinete

…………………..

Gilberto Motta é escritor. Vive na Guarda do Embaú, vilarejo do litoral de SC.

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