Modelo morto, sem cova
Somos um País com partidos em excesso, onde falta coerência
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O Brasil não tem um sistema partidário consolidado, tem um acúmulo histórico de arranjos que aprenderam a conviver com eleições regulares, mas jamais com a exigência mínima de coerência política que se espera de estruturas destinadas a organizar a representação da sociedade, o que ajuda a explicar por que o processo eleitoral funciona tecnicamente, mas frequentemente não se sustenta como narrativa política consistente.
Essa deformação não é recente nem episódica, atravessa a formação institucional do país e se manifesta desde os primeiros modelos de organização política.
Na reorganização do pós-Estado Novo, sob Getúlio Vargas, surgem PSD, UDN e PTB, estruturando um ambiente competitivo, mas já marcado por partidos que operavam mais como instrumentos de poder do que como expressões orgânicas da sociedade, situação agravada por um desenho eleitoral que não estruturava a lógica de chapa vinculada como hoje, permitindo que a escolha para presidente e vice pudesse resultar em composições politicamente desencontradas no próprio núcleo do poder.
A crise de 1961, que levou à adoção do parlamentarismo como solução improvisada para garantir a posse de João Goulart, com Tancredo Neves, revela um traço que se repetiria ao longo do tempo, a substituição de soluções estruturais por arranjos de ocasião, capazes de conter crises imediatas, mas incapazes de organizar o sistema de forma duradoura.
O regime militar, ao impor o bipartidarismo com ARENA e MDB, buscou produzir estabilidade pela restrição, mas não alterou a natureza instrumental dos partidos, já que mecanismos como o voto de legenda eram utilizados como ferramentas de engenharia política voltadas à composição de maiorias e à calibragem de resultados, e não à consolidação de identidades partidárias consistentes.
A abertura política, ao restabelecer a liberdade de criação de partidos, inaugura um momento que parecia apontar para maior organização, com o MDB transformado em PMDB sob lideranças como Ulysses Guimarães, José Sarney e Tancredo Neves, a fundação do PT por Luiz Inácio Lula da Silva, a reorganização do PDT por Leonel Brizola, a criação do PSDB por Fernando Henrique Cardoso, Mário Covas e José Richa, e o surgimento do PFL a partir da dissidência do PDS, reunindo nomes como Marco Maciel, Jorge Bornhausen, Aureliano Chaves e Antônio Carlos Magalhães, movimento decisivo na engenharia política que viabilizou a transição de 1985.
O que se consolidou, no entanto, não foi um sistema estável, mas um ambiente de baixa institucionalização, no qual a liberdade partidária, combinada com regras permissivas e incentivos eleitorais fragmentadores, produziu partidos altamente flexíveis, com reduzida capacidade de organizar preferências coletivas e forte dependência de lideranças individuais.
Essa lógica encontra sua expressão mais evidente na convivência, por décadas, de alianças nacionais que não se reproduziam nos estados, permitindo que partidos como PMDB, PSDB, PT, PP, PSD e União Brasil transitassem entre arranjos contraditórios, ajustando seu posicionamento conforme interesses regionais, o que, em um país de dimensões continentais e forte viés regionalista, institucionalizou a incoerência como prática legítima.
O multipartidarismo brasileiro deixou de ser expressão organizada da sociedade para se tornar mecanismo de acomodação política, multiplicando siglas sem exigir delas consistência programática, o que enfraquece sua capacidade de estruturar o debate público e desloca o centro da política para indivíduos, alianças circunstanciais e negociações de curto prazo.
O efeito disso se projeta diretamente sobre o processo eleitoral, que mantém eficiência operacional, mas convive com baixa previsibilidade política, levando o eleitor a desenvolver uma relação pragmática com o sistema, na qual a confiança se desloca das instituições partidárias para figuras individuais, em razão da percepção recorrente de que os partidos não oferecem parâmetros estáveis de orientação.
O Brasil não enfrenta apenas um excesso de partidos, enfrenta a perda de significado deles, e enquanto essa condição persistir, continuará operando um sistema eleitoral funcional, mas sustentado por uma estrutura partidária que não consegue, por si só, dar unidade ao processo político.