Certa noite
Sonhos
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Juliano tinha sonhos vívidos. Foi o seu mal.
Certa noite, ele sonhou com uma mensagem num fundo branco, como uma tela de computador ou um papel de carta. Lia cada palavra e em seguida ela se desmaterializava. E não conseguia entender o que lia, embora achasse que era um protesto contra alguma coisa ou um pedido. Ficaram nítidas em sua memória, porém, as duas últimas palavras do texto: “mi coño!”
Ao acordar, ele pensou em reler a mensagem que o havia marcado tão profundamente. Tinha apenas uma amiga de habla hispana, a galega Manuela, então procurou mensagens da rapaza (adorava essa palavra da Galiza) em todas as suas redes sociais. Não encontrou nada. Por fim decidiu telefonar, embora estivesse meio sem jeito: fazia uns 20 dias que não a procurava para um amorzinho virtual…
-Oi Manu, é Juliano. Por acaso você me mandou uma mensagem e apagou logo em seguida?
-Hola, Ju. Não, não mandei. Por quê?
Ele falou-lhe do sonho e das palavras que se gravaram em sua memória. Ela riu, deliciada:
-Não escrevi nem mandei áudio, mas pensei em ti. Aliás, tive um sonho erótico contigo. E, coincidência, nele te pedi, em galego castiço, “Lambe meu cono!”Porque traduziste para o castelhano não faço ideia, talvez porque aches que o galego é um português mal falado …
Os dois acharam melhor ignorar o confronto linguístico, parar a investigação e obedecer à sugesta enviada d’além mar. Assim, entregaram-se a uma deliciosa sessão de sexo online, tirando o atraso dos 20 dias.
Mais tarde, ele pensou no que havia ocorrido. Coincidência? Não acreditava nelas. Mas acreditava, e muito, no poder dos sonhos. Ele obedecera, com algumas horas de defasagem e a milhares de quilômetros de distância, ao que a rapaza lhe pedira. Se ao menos houvesse um meio de mover-se em sonho como em vigília, sua vida erótica e a de sua ficantes ia ficar muito mais divertida…
De repente lembrou-se dos livros sobre o índio Don Juan, personagem de Carlos Castañeda. Neles eram mencionados exercícios para ir além dos sonhos vívidos e atuar conscientemente na dimensão onírica. Fez uma rápida pesquisa e, horas depois, criou um manual de treinamento para sexo onírico. Enviou de imediato o texto para as cinco mulheres com quem estava envolvido. Três delas não se interessaram, preferiram continuar no amorzinho a distância com outros caras menos intelectualizados. Mas duas se comprometeram a praticar, a galega Manuela e Beatriz, uma gauchinha. Eram justamente aquelas por quem sentia carinho, além de tesão.
Após umas duas semanas de treinamento, Luciano e as duas moças iniciaram as sessões de sexo onírico. Às vezes era exasperador, a imagem sumia no melhor da festa. Mas o nível de prazer subiu várias oitavas: os orgasmos, no mundo dos sonhos, eram muito melhores que no mundo da vigília (ele se recusava a falar “mundo real”, os sonhos também faziam parte do mundo perceptível pelos sentidos). Pela primeira vez compreendeu todo o alcance da observação de um filósofo, não lembrava quem, de que o sonho é a maneira do homem criar como um deus…
Só que deuses tombam por terra, e sonhos não são criptografados.
Certa noite, Ju e Manu se entregavam aos doces prazeres da sacanagem quando Bia irrompeu no quarto onírico. Até hoje ele não sabe se a convocou inconscientemente, pensando em uma festinha a três, ou se ela entrou por iniciativa própria. Seus olhos fuzilavam; mais gaúcha do que nunca, estava pronta para pelear.
– Bah, quem é essa china, bagual?
Sorte que Manu não entendia ofensas gauchescas. Cobrindo-se com um lençol onírico, a galega se apresentou, gaguejando um pouco:
– So-sou a rapaza…
– Rapaz? Tu agora faz com rapaz, seu corno? – interrompeu Bia. E olhando bem para Manu, acrescentou: – Mas até que esse rapaz tem uns peitinhos lindos…
As duas se olharam e trocaram um sorrisinho.
Pressionado, ele teve de fazer uma apresentação completa; nome e sobrenome das duas, de que cidade eram, de que país e por aí foi. A transa terminou por ali, enquanto Manu e Bia conversavam como amigas de infância e trocavam telefones.
Nos dias seguinte, as duas ignoraram as propostas de sexo de Juliano. Uns 10 dias depois, ambas irromperam em seu sonho, abraçadas e só de calcinha e sutiã.
-Olha, bagual, transamos todos esses dias – explicou desnecessariamente Bia. – Mas tu é bom de cama e, se quiser, pode fazer conosco…
– Só que o jogo mudou – acrescentou Manu. – Agora as rapazas damos as cartas… – e riu maliciosa.
O sexo foi uma delícia. Juliano, o coração apertado de apreensão, demorou muito a gozar, o que aumentou o prazer das parceiras. E, apesar da explosão física, tinha consciência de que ele, criador do método Don Juan-Juliano de sexo onírico, tornara-se um coadjuvante dispensável.
A comprovação veio três dias depois. Ele fazia um amorzinho gostoso com Manu, por sorte sem a presença de Bia, quando ela entrou no quarto, acompanhada por dois caras nus, prontos para o combate. Foi a gota d’água.
– Que porra é essa? – explodiu Juliano.
– Olha, Manu, o bagual tá brabo – zombou a gauchinha. – Apontou para os dois caras e falou ao dono do sonho que invadira:
– Olha esses dois, Ju. São mais jovens, mais sarados, mais pintudos do que tu. São burros como uma porta, tu é inteligente, mas é tua única vantagem. E concluiu:
– Então te acostuma que às vezes tu vai receber visitinhas dessas. E não te fresqueia com nossas prendas, minha e da Manu – concluiu com um risinho.
Juliano continua a transar com Manu e Bia, porém muito menos que antes. E quando uma delas chega com mais atletas, ele dá boa noite e se retira, para tentar dormir sem sonhos. Às vezes consegue.