Vaga-lumes
Suas partes baixas começaram a emitir luzes fortes e intermitentes
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Otávio estava no trabalho quando leu na internet um artigo sobre pirilampos e vaga-lumes. Nele aprendeu, entre outros fatos, que são insetos diferentes e que o pisca-pisca dos machos destina-se a atrair as fêmeas. “Mais um punhado de lixo cultural” pensou. “Vou esquecer em poucos dias”. E voltou para casa.
A noite caía. Ele caminhava pela rua, dirigindo-se ao metrô, quando a coisa – a metamorfose – aconteceu. Sorte dele, no transporte coletivo o vexame ia ser muito maior, ele perigava levar uma surra ou algo assim.
O que houve foi que suas partes baixas começaram a emitir luzes fortes e intermitentes. A cueca e a calça cortavam parte da luminosidade, mas o fenômeno era indisfarçável. Morto de vergonha, colocou as mãos diante do ventre para diminuir o mais possível o piscar.
-Moço, posso falar com você?
Otávio virou-se e viu uma jovem bonitinha, de expressão séria. Ele fez que sim com a cabeça.
– Meu nome é Marina, vi o que aconteceu com você. Sou entomologista, quer dizer, estudo insetos. E me especializei nos vaga-lumes. Você sabia que são espécies diferentes…
– Das dos pirilampos? – cortou o piscador. – Aprendi isso hoje, num artigo de divulgação científica. Acho que foi a leitura dele que causou essa desgraça!
A moça não comentou a frase dele. Em vez disso, observou:
– Olha, desculpe a ousadia. Gostaria muito de examiná-lo. Vamos pro meu apartamento? É pertinho. Quem sabe tenho um jeito de diminuir seu desconforto – e abriu um sorriso enigmático e com pitadas de sensualidade.
No apartamento, ela o levou até o quarto, pediu que se despisse e deitasse na cama. Explicou que voltaria logo, ia colocar uma roupa mais confortável. Retornou em cinco minutos, vestindo um shortinho e uma blusa, sem sutiã. Encontrou-o nu, brilhando cada vez mais forte e mais rápido, com as mãos diante do corpo, tentando inutilmente disfarçar sua luminosidade e sua ereção.
Ela acariciou-lhe o rosto e desceu pelo corpo.
– Querido, não fique sem graça – falou. – As luzes dos vaga-lumes não mentem. – E explicou:
– Seu piscar intenso mostra que você está pronto para acasalar com uma fêmea da sua espécie. E a fantasia sexual da grande maioria das entomologistas é transar com alguém que reproduza o comportamento dos insetos machos estudados por ela. Tenho esse desejo, e uma urgência tão grande quanto a sua. – Abaixou o short (estava sem calcinha), mostrando a luminosidade que irradiava de seu ventre.
– Eu sabia o que eu era, mas a fêmea só consegue irradiar depois de perceber as vibrações luminosas emitidas pelo macho. E você é o primeiro homem-vaga-lume que encontro. Vamos fazer agora!
Não houve grandes preliminares, a luminosidade que parecia deslizar sobre o corpo dela, numa carícia sem toque, era a garantia da lubrificação. Ela retribuía com um piscar sedutor, que o levava à loucura. Tampouco variaram muito as posições, isso era coisa de humanos e os dois estavam além dessa dimensão. Houve prazer, claro, mas o impulso básico era o de perpetuar a espécie.
– Tenho certeza de que você me impregnou – disse ela, espreguiçando-se na cama, junto a Otávio. – É como deve ser. E vaga-lumes chegam a viver três anos, então poderemos passar muito tempo juntos, ter uma porção de filhotes.
Marina levantou-se, pegou-o pela mão e o conduziu até a janela:
– Agora você vai experimentar toda a magia de estar associado a um inseto voador. Vai ser tão bom quanto a nossa transa, talvez melhor, no mínimo, inusitado. Confie em mim.
De mãos dadas com ele, saltou pela janela, para voar, mergulhar vertiginosamente, subir de novo, dar beijinhos e se enlaçar sob a luz fria da Lua e das estrelas.