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Discurso monotemático

Subserviência política e inação fazem do Brasil piada mundial

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Foto/Imagem:
Wenceslau Araújo

Segunda mais alta da série histórica da pesquisa do IBGE, iniciada em 2012, a taxa de desemprego alcançou 14,7% no trimestre encerrado em maio, atingindo o recorde de 14,8 milhões de brasileiros. Como consequência, são quase 117 milhões de pessoas sem acesso pleno e permanente a alimentos e 19,1 milhões de compatriotas que efetivamente passam fome. A contrapartida do governo em relação as mazelas do Brasil é um eloquente silêncio. Aliás, a sossegada quietude do presidente da República e de seus ainda enlouquecidos apoiadores é inspiradora para oposicionistas e para aqueles que, faz tempo, deixaram de sonhar com dias melhores. Isolado do mundo, o país pega fogo, muita gente continua morrendo por causa da covid, faltam vacinas para algumas centenas de milhares de brasileiros e o mandatário insiste na figuração. Nada mais do que isso.

Já ouvi comentários de boteco definindo a atual administração como o maior conto do vigário da história nacional. Lamentável, mas algo similar à divisão do Brasil em antes e depois do bolsonarismo. Sem discurso lógico ou ilógico, o chefe da nação tem obrigado seguidores a manter acesa um chama que se apagou desde que foi acesa. Há dúvida de que ela tenha sido verdadeiramente acesa. Tanto que, de acordo com explicação de um amigo a um conhecido gringo, o presidente, para tentar jogar lenha na pira do voto impresso, convocou recentemente a imprensa e falou por duas horas para provar que ele ganhou um eleição fraudada em 2018 e perdeu uma eleição fraudada que ocorrerá somente em 2022. O argumento foi o mais simplório já ouvido por qualquer analista sério: “a prova é a falta de prova do contrário”.

Esses mesmos analistas perguntariam uns aos outros como é possível alguém acreditar em algo inacreditável. A resposta seria ainda mais simplória: pior do que aceitar o inaceitável é admitir o inadmissível. Em outras palavras, se ainda temos brasileiros que morrem por um mito, imagine informar a esse mesmo povo que duendes, saci-pererês e mulas sem cabeça nunca existiram. Certamente eles não acreditarão e podemos sofrer novas ameaças caso insistamos na afirmação de que essas figuras não passam de lendas. Mitos, lendas, fábulas, crenças inescrupulosas, mentiras, silêncio ensurdecedor e a falta de ação em questões de relevância mundial acabaram por transformar o governo brasileiro em piada internacional. E, convenhamos, é uma piada sem graça alguma.

Derrotado até por parlamentares do bloco de apoio na empreitada de desqualificar a urna eletrônica, Bolsonaro, depois de três anos, ainda não seu deu por vencido. Insistir com esse discurso monotemático é sinônimo de tentar se manter em evidência, alongar a sangria ou, na melhor das hipóteses, consolidar a desculpa para a iminente derrota em outubro de 2022. É o novo velho momento da política brasileira. Tudo na mesma. Por isso, somos obrigados a uma viagem filosófica. Por exemplo, a tese de que o poder é efêmero só é expressada por pessoas que pensam o país como algo de todos. Imaginá-lo de forma absoluta, indissolúvel e como se fosse sua propriedade é próprio daqueles que não sabem brincar, que não admitem alternância e que vivem como intocáveis deuses do Olimpo. Enfim, déspotas, conforme o português mais ortodoxo.

Independentemente do que pensam os que apostam no quanto pior melhor, atingimos o cúmulo da subserviência política, bem próximo das raias da entrega total. Dilma Rousseff quase atingiu esse estágio. Talvez tenha sido salva pela ganância de poder do neoliberalismo ou pela suposta centro-esquerda comandada em uma época remota, também supostamente, por Michel Temer. Preocupado com o desemprego, com a fome e, sobretudo, com os efeitos da pandemia, torço por um país viável e governado de forma séria e definitivamente honesta. E não importa que seja de direita, esquerda ou de centro. Tem de ser verdadeiramente comprometido com o povo brasileiro. Melhor que seja alguém corajoso e capaz de propor uma reforma profunda. Sem ela, o Centrão sempre haverá de dar cartas, mesmo que o ativista Guilherme Boulos seja o presidente.

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