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Nova fórmula

Tapetes não aguentam mais esconder tanta coisa ruim

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Foto/Imagem:
Wenceslau Araújo - Foto de Arquivo

Embora tenha minha preferência, faz parte ficar longe da vontade de defender esse ou aquele candidato à Presidência da República. Entretanto, é impossível esquecer um antigo ditado sertanejo: saudade é uma vontade de ver de novo. Tirem suas conclusões, mas não custa lembrar sempre de um outro ditado bíblico: “Quem não acredita que é possível ir mais longe ou não tem capacidade para isso ou acaba derrotado antes mesmo de partir para a batalha”. Não é uma questão de semântica, mas um fato que marcará as eleições que se avizinham. Depois de uma fracassada expectativa, que gerou uma bruta frustração, a esperança voltou a se acender. Agora é tempo de deixar que ela invada totalmente nossas vidas. E não importa que a força desse sentimento permaneça à direita ou retorne à esquerda.

Importante é que sejamos novamente unidos por um desejo que deveria ser inapagável: um Brasil grande. Para isso, temos de pensar com urgência em um rei forte, de modo que nossa forte gente não se torne fraca até nos pensamentos. A proximidade do pleito me faz relembrar quadras antigas, quando, governados por esse ou aquele presidente, tínhamos como única preocupação as atitudes dos mandatários. Como hoje, as palavras se perdiam no vento. É aquela máxima de que as pessoas podem nos dizer qualquer coisa, mas são as atitudes que dizem tudo. Por isso, respeitávamos o soldado, o cabo, o general, o empresário e o servente de pedreiro. Elegíamos quem imaginávamos capaz.

Obviamente que as frustrações vêm desse período. Raramente acertávamos. Entretanto, jamais aceitamos um Rei Momo sem trono, um mestre-salas sem acompanhante ou o Piu-Piu sem o Frajola. Quando isso ocorria, saíamos às ruas para protestar juntos. Os ideais eram indissolúveis, principalmente nos casos em que as propostas apresentadas nos comícios e discursos radiofonizados divergiam do dia a dia do candidato vitorioso. O Brasil tinha seus encantos justamente porque o povo buscava uma identidade convergente. Éramos flamenguistas, vascaínos, botafoguenses, tricolores, palmeirenses, gremistas, atleticanos, corintianos, cruzeirenses, pesseditas, emedebistas, arenistas, mas, acima de tudo, brasileiros.

Torcíamos, sofríamos, xingávamos, mas não agredíamos, não matávamos. As adversidades ficavam nos estádios, nas urnas ou nos plenários do Congresso Nacional, das assembleias legislativas ou das câmaras municipais. Raramente passavam do plano das ideias. A ordem da boa convivência era simples: seríamos sempre adversários, nunca inimigos. Perdemos os valores. Hoje, tanto no futebol quanto na política (principalmente nessa), não posso cravar nomes com os quais simpatizo. Além de obsessor, posso ser acusado de comunista ou de estar escrevendo contra o Brasil. Em resumo, tenho de louvar loucuras, entender fanatismos e reconhecer como mais ou menos o que é péssimo, sob pena de, no mínimo, ser excomungado.

O risco é real. As ruas não admitem mais o bipartidarismo. Imagina o pluripartidarismo. Temos de vestir as cores daquele presidente. Na melhor das hipóteses, emudecer sobre aquela outra cor forte. Citar em voz alta aquele número que dizem dar azar é morte certa. E o que dizer do juiz que preferiu ser político? Nada. Comparar passado e presente realmente não é de bom alvitre. O que foi bom ontem pode ser ruim ou desconhecido hoje. Do mesmo modo, o que foi relevante nessas duas primeiras décadas deste século talvez fosse sem serventia no século passado. A fórmula atual é varrer para debaixo do tapete tudo que é ruim. É uma pena, pois, dessa forma, jamais aprenderemos a ser bons. Pior de tudo é que os tapetes não conseguem mais esconder tanta coisa ruim.

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