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Saúde

Terapia com cão ajuda a combater a depressão

Camila Tuchlinski

Antes de ser diagnosticada com depressão, Aline Prado Rodrigues, de 32 anos, apresentou alguns episódios de pânico. “Na época, eu não sabia o que era, nem como lidar. Tive esse problema em uma viagem com meu ex-namorado num dia de calor no Rio de Janeiro. Ele havia me dado o Troy (cachorro) de presente. Depois, tive crises em situações simples dentro do supermercado, na academia. Como eu não sabia o que estava acontecendo, não dei a devida importância”, relembra.

Na época, a assessora de imprensa trabalhava em uma indústria farmacêutica e foi diagnosticada também com hiperatividade. Meses depois, o cãozinho Troy sofreu um acidente em uma escada, ficou com a pata comprometida e passou a usar cadeira de rodas. “Isso aconteceu dois meses antes da fase aguda da depressão, em que eu não conseguia ter uma vida normal, não conseguia trabalhar, sentia dores terríveis pelo corpo, uma sensação horripilante de desespero para acabar com a dor”, relata Aline.

Para Aline, mesmo tendo de cuidar de Troy, a presença do pet foi importante para a recuperação emocional. “Ele foi fundamental como meu amigo. Sempre que eu chorava, me trazia um brinquedo ou a coleira. No início, eu ia ao parque com ele, sentava na grama e ficava por horas. Depois dessa fase, passei a procurar [trabalhos] freelancers, assim não precisava trabalhar fora de casa e poderia ficar com o Troy. Até então, não tinha consciência do quanto ele me trazia tranquilidade e segurança para desempenhar atividades comuns para maioria das pessoas”, diz.

“A relação que criei com meu cão foi muito intensa e ouvi durante inúmeros passeios o quanto ele tinha sorte de me ter, mas o que essas pessoas não sabiam é que ele me forçava a sair da cama e sem dúvida foi o que me ajudou a passar por crises de depressão”, afirma Aline.

A psicóloga clínica Andrea Correia e Silva avalia que ter animais de estimação contribui com a saúde mental do tutor. “Podemos dizer que, nos cuidados com os pets, aqueles que têm depressão e ansiedade rompem ociosidades, transformando pensamentos e ações negativas em positivas. A reciprocidade e a solidariedade entre pets e quem tem depressão está refletida no compromisso do cuidado na vida diária. Um exemplo é quando o tutor tem que levantar da cama para por comida e água para o pet e diz: ‘Se não fosse por ele, não sairia da cama, nem de casa’. Os pacientes também aderem melhor aos tratamentos psicofármacos e psicoterapia”, explica.

Segundo a especialista, que também tem experiência com outros pacientes e seus pets, algumas pessoas relatam que se sentem melhor por causa da responsabilidade de cuidar do cão ou gato. E, nesses cuidados, não são criticados e nem cobrados por melhoras.

Segundo a Teoria do Apego, desenvolvida por John Bowlby, o vínculo é biologicamente motivado como uma busca por conforto e segurança. “Dessa forma, o vínculo entre homem e animais de estimação obtém resultados significativos. Além dos benefícios verificados em casos envolvendo ansiedade, o suporte emocional vindo dos animais de estimação é percebido em outras condições clínicas. Eles oferecem consolo, segurança e tranqüilidade para as pessoas de todas as idades”, na análise da psicóloga Andrea.

Luto e depressão
Em um dos momentos mais críticos da depressão, Aline conseguiu levar Troy ao trabalho. “No escritório foi fácil, porque ele já era um animal educado e tranquilo. Nossos colegas de trabalho também gostavam e na verdade o benefício acabou sendo pra toda equipe”, conta.

Em março deste ano, Troy morreu por causa de um sarcoma na coluna, trazendo tristeza para a vida de Aline. “Ele faz muita falta, em todas as horas do dia. Quatro dias após a morte, cheguei a sentir medo quando chegava ao escritório. Meu sócio me presenteou com o Doge (cãozinho) e isso me ocupou bastante. Permaneço conectada com o Troy porque fazíamos muitas ações voluntárias juntos. Essa também foi uma ‘pílula’ que me fez sentir útil. Doge está em treinamento, mas já frequenta nosso escritório, seguindo como uma ferramenta importante para que eu consiga continuar sendo reintegrada, confiante e principalmente, sem crises de pânico (há dois anos)”, desabafa.

A psicóloga Andrea Correa e Silva enfatiza que, em casos em que o risco de suicídio é persistente, ou seja, o paciente é psicótico, apresenta tentativa violenta, quase-letal ou premeditada, tem plano ou intenções persistentes ao ato e outras situações severas que comprometem a segurança da própria pessoa e/ou de outras, intervenções são necessárias.

Porém, em situações menos urgentes, é possível combinar uma ação multidisciplinar e os cuidados com os pets. “Quando os riscos de suicídio são menores e é possível um tratamento com seguimento ambulatorial psiquiátrico, equipe da saúde mental (psiquiatra, psicólogos, enfermeiros, terapeuta ocupacional, educador físico, etc), ou seja, a tentativa de suicídio é uma reação a eventos precipitantes na vida da pessoa (perdeu o emprego, familiar querido morreu, rompimento de relacionamentos, etc), acredito que é possível prescrever os cuidados com animais de estimação como complemento de tratamento”, esclarece a psicóloga Andrea Correa e Silva.

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