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Comuna ou anarquista

Tio Pereira e as veias abertas da América Latina

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Autor/Imagem:
Plínio Pavão - Foto Francisco Filipino

Pensem num sujeito ateu, herético, acético, niilista, descrente e irreverente. Esse era o tio Pereira. Se estivesse batendo um prego e o martelo escapando atingisse seu dedo, podia-se esperar, além dos previsíveis palavrões, uma meia dúzia de blasfêmias contra a moral e a religião. Isso tudo, do meu ponto de vista, não revelava falha de caráter, mas sim traços essenciais de sua admirável personalidade.

Antes de continuar, um detalhe sobre o nosso “parentesco”: ele não era meu tio de sangue, como se diz, mas casado há quase 50 anos com uma tia da minha primeira mulher por meio de quem o conheci, no início do relacionamento, e nos simpatizamos mutuamente logo nos primeiros contatos.

Pois então, era essa figura excêntrica e singular. Ao mesmo tempo neurastênico e bem-humorado. Diante de perguntas idiotas, respondia com um misto de escárnio e irritação com frases absurdas, emulando aquele antigo personagem humorístico da televisão, repetia seu bordão: – “Tenha paciência, Pedro Bó” – e complementava com uma risada discreta, mas sarcástica.

Um exemplo emblemático daquela velha máxima da “atração entre os opostos”, eu, ainda bem jovem, meio sem graça, tímido, com uma razoável formação cristã, herança de família, cumpridor dos deveres e dos preceitos morais, em resumo, o arquétipo do bom moço, e ele, a encarnação do malandro bem vivido, nos tornamos bons companheiros.

O velho Pereira, além do mais, dotado de grande inteligência, criatividade, malícia e experiência, era também dono de múltiplas habilidades: jardineiro, exímio cuidador de samambaias e heras, com as quais costumava presentear familiares e amigos; zeloso com os animais, em especial os passarinhos, colecionados em mais de uma dúzia de gaiolas pelo quintal da casa, e de seus dois gatos, animais cuja natureza melhor combinava com seu jeito de ser. Costumava conversar tanto com as plantas como com os bichos de estimação, fato curioso, pois apesar de sua proverbial descrença em quase tudo, acreditava que compreendiam sua linguagem.

Era também o popular faz-tudo; eletricista, encanador, pedreiro, pintor, marceneiro, especialista em telhados etc. – por isso ao início citei o exemplo do “prego e do martelo”, algo que acontecia com certa frequência. Algum parente, amigo, vizinho ou conhecido, precisando de um conserto ou manutenção, fosse o que fosse, era só chamar, o Pereira estava sempre pronto a resolver o problema, sem cobrar um centavo.

Um grande frasista, repetia sempre em tom filosófico: “todo homem é venal, só é preciso descobrir seu preço” ou “o homem tem direito de tomar um barril de cachaça durante toda sua vida, mas eu, quando moço, tomei o meu inteirinho e o de mais alguém que bobeou” ou ainda, “não existe negócio muito bom para ambos os lados, quando um sai ganhando muito é porque o outro teve prejuízo” e eu, depois de aprender muita coisa com ele, passei a complementar “caso o negócio seja excelente para os dois, existe sempre um terceiro, um coitado que nem aparece no contrato, mas é quem leva a pior”, com o que ele concordava.

Era também especialista em dar o troco quando lhe aprontavam alguma. Certa vez a companhia de água lhe cobrou uma importância absurda, como dez vezes o valor de uma conta normal. Ele tinha certeza, não havia nenhum vazamento na casa, pois se houvesse ele teria descoberto antes de qualquer um e providenciado o reparo, ao mesmo tempo o consumo não variava de um mês para o outro, moravam somente ele, a mulher, as plantas e os bichos e consumiam sempre praticamente a mesma quantidade de litros. Fez diversas reclamações, mas a companhia não se convenceu e manteve a cobrança.

Diante de tal intransigência, acabou pagando, mas não se deu por vencido. Lançando mão de seus conhecimentos, desconectou o medidor e fez a ligação direta, popularmente conhecida como “gato”. Passou a lavar o quintal todos os dias e a calçada em frente à casa. Não contente, às vezes lavava o quintal de outras casas da rua e até o asfalto em frente, uma vez na semana dava uma de lavador dos carros dos vizinhos, já que nunca teve um. Quando avaliou que já havia gastado a quantidade correspondente ao valor pago, desfez a ligação clandestina. Nos meses seguintes a cobrança retornou à normalidade e nunca mais o problema se repetiu.

Há anos, a conselho médico, por ter adquirido algumas complicações de saúde, tornou-se abstêmio, ou quase. Vez por outra consumia alguns copos de vinho. Não chegava ao ponto de se embriagar totalmente, apenas ficava levemente alterado e, nessas ocasiões, se tornava ainda mais irônico e mordaz.

Teve grande participação no meu processo de formação e amadurecimento com seu método pedagógico “sui generis”, e talvez inconsciente, de ensinar por meio de finas ironias e deboches escrachados. Por eu ser, à época, frequentador das missas católicas e usar um crucifixo ao pescoço, me chamava, por pura gozação, de “cruzado” ou “cavaleiro templário” e não perdia oportunidade de me provocar enxovalhando a igreja, a qual chamava jocosamente de “santa madre”, lembrando sempre seu papel opressor, especialmente durante a idade média e os primeiros séculos após o fim daquela era.

Tínhamos grande afinidade, é certo, mas nem por isso aliviava para o meu lado, porém, eu sabia, fazia com a melhor das intenções, se é que boas intenções tivessem algo a ver com seu perfil. De todo modo, não perdia oportunidade de conviver com ele para desfrutar de sua sabedoria obtida, não só com perspicácia e espírito aventureiro, bem como por sua erudição, pois outra característica sua era ser leitor fervoroso de livros clássicos e contemporâneos de todos os gêneros e épocas, assim como de jornais, inclusive alguns estrangeiros. Consumia desde os pré-socráticos até as edições semanais de “O Pasquim”.

Aos poucos, me fez entender que no fundo eu era de esquerda, assim como me descobrir não propriamente ateu como ele, mas agnóstico, e abandonar a religião. Certa vez, como que para testar meu viés ideológico, me trouxe, por empréstimo, um livro, recém liberado pela censura da ditadura militar em tempos de abertura “lenta, gradual e segura”, presente de seu irmão, “As Veias Abertas da América Latina”, de Eduardo Galeano, recomendando-me severamente a devolução assim que terminasse a leitura, mostrando orgulhoso e quase emocionado, o que também não combinava com ele, a dedicatória em uma das primeiras páginas:

“A você, Pereira, libertário comuna, dedico este livro, uma aula de história essencial a qualquer um que se considere um revolucionário.
Tovarische Chicão”

Todos o rotulavam de comunista, eu, no entanto, sempre discordei, na minha opinião estava mais para anarquista. Mas ele não se enquadrava em estereótipos. Talvez até pudesse ter criado um movimento próprio: o “Pereirismo”, mas, pensando bem, isso não lhe interessava, suas ideias e comportamento eram totalmente espontâneos e não tinha nenhuma pretensão de converter ninguém e muito menos angariar um séquito de discípulos, talvez eu tenha sido a única exceção à regra, e, provavelmente, isso tenha acontecido por mero acaso.

Ler aquele livro, por si só, era uma experiência fascinante, em primeiro lugar pela distinção de ter merecido sua confiança ao me emprestar aquele verdadeiro tesouro e, em segundo, pela sensação de ler algo que havia sido proibido pelo regime de exceção, me sentindo um “transgressor” à semelhança do meu “guia”. Ao mesmo tempo, encantado com as descobertas e chocado com aquelas terríveis descrições, das quais eu tinha um superficial conhecimento, mas os detalhes e as revelações, nunca mencionados nos livros didáticos adotados pela grade curricular do ensino ginasial, me causavam ainda maior revolta e aprofundavam minha repulsa a toda prática colonialista e imperialista.

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