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Paixão nacional

Torcida veta agiotam política com a Seleção

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Autor/Imagem:
Armando Cardoso - Foto de Arquivo

Mais do que lazer e religião para muitos torcedores, o futebol é um ecossistema gigantesco. Embora se mantenha do povão, ele movimenta bilhões de dólares por meio dos direitos de transmissão, patrocínios, vendas de jogadores e, mais recentemente, plataformas digitais e mercados de apostas. Em dias de partidas, especialmente em campeonatos de grande porte e nos jogos da Seleção Brasileira, o chamado esporte bretão é capaz de paralisar o cotidiano e unir pessoas de todas as classes sociais. É o que, mesmo sem o futebol-arte, tem feito o escrete canarinho. Foi o que fez a Seleção ao vencer, de virada, o Japão por 2 a 1.

Apesar da tentativa de polarizar o futebol como, estúpida e grotescamente, fizeram com a política, o futebol no Brasil funciona como pilar central da identidade cultural, da sociabilidade e da própria história do país. Sua consolidação como “paixão nacional” está profundamente ligada à sua democratização e ao forte apelo popular, moldando a forma como o povo brasileiro se expressa e se conecta. Como não há nada ruim que não possa ficar pior, aliado à má fase da Seleção Canarinho, não faz muito tempo um grupo ligado à agiotagem política anunciou a posse da camisa “amarelinha” como produto da direita.

Esquecendo que a relação entre a Seleção e o patriotismo é historicamente intensa, o grupelho de fanáticos se utilizou das transformações esportivas dos últimos anos para tentar fazer das cores oficiais do uniforme do escrete nacional um símbolo da política-ideológica rasteira, ultrapassada e golpista. Durou pouco a insanidade dos antipatriotas. Para quem não se lembra, durante o governo de um presidente que se foi sem deixar saudades, a camisa da Seleção e as cores da Bandeira Nacional foram fortemente associadas a movimentos políticos de direita e de extrema-direita.

Para o bem da nação e da população que realmente torce pelo sucesso do Brasil, figuras vinculadas à esquerda, entre elas o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, buscaram recuperar e ressignificar o uso do verde e amarelo como ícones da soberania nacional. Em tempos de Copa do Mundo, felizmente o engajamento e as menções positivas ao país viraram palavras de ordem. Não tenho informações precisas, mas, informalmente, não é difícil perceber que, desde a estreia contra o Marrocos, pouco se tem falado a respeito da polarização política.

Fala-se muito da descida morro abaixo dos números da campanha do candidato extremista. Sobre isso, por enquanto nada a declarar. O que posso dizer é que, quanto mais alto é o sonho, maior e mais impactante é a queda. Literalmente, isto é um fato da física ou, como prega o povo, é sobre arrogância e fracasso. Nada a acrescentar. Importante é que a “amarelinha” deixou de ser artefato central em disputas políticas e culturais, se consolidando definitivamente como marca estritamente esportiva. Que bom que a camisa da Seleção recuperou o status de união e, pelo menos aparentemente, novamente aproximou os que pensam diferente, notadamente familiares e amigos.

É assim que tem de ser. E assim será. A “amarelinha” não é exclusividade de quem bebe detergente, reza para pneu e bata continência para a bandeira americana. A Seleção não é de direita, muito menos de esquerda. Nosso futebol e nossa política não andam bem. Entretanto, torcer pelo Brasil melhor na política e no futebol não é questão de fase, mas de identidade, de paixão e de orgulho nacional. Uma partida de futebol dura somente 90 minutos. Já o mandato presidencial é de quatro anos para uns, oito anos para outros e pode chegar a 16 anos para alguns. Tudo depende de como o torcedor e o eleitor os avalia. Só o que não tem tempo para acabar é o orgulho de ser brasileiro. Domingo é dia de remar contra os vikings.

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Armando Cardoso é presidente do Conselho Editorial de Notibras

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