Santíssima
Trindade
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Ser devoto da Santíssima Trindade leva ao paraíso. Curtir outras trindades mais profanas, também.
Leda, 44 anos, divorciada, tinha uma paixão. Bom, não era exatamente uma paixão, era mais um crush solidamente enraizado em seu coraçãozinho.
Moravam em estados diferentes, mas podiam se encontrar de tempos em tempos e, nos intervalos, fazer um amorzinho virtual. Ela adorava, gostava de murmurar doces sacanagens ao celular, visualizar os dois se enroscando na cama, levar o(a) parceiro(a) ao delírio… Mas ele nem pensava nisso. Quer dizer, pensar até pensava, mas não tinha tempo para dedicar à moça. Vivia para escrever, publicar… e vender livros. Sonhava não em dar-lhe prazer, como Leda merecia, tampouco em ser um autor conceituado, mas em ficar milionário com a literatura.
Em tais circunstâncias, o tédio se instalou, como um posseiro, na relação. Pintou uma pontinha de ressentimento em relação ao Escritor (era assim, com uma maiúscula inicial, que ela pensava no crush). E também um desejo não dissimulado de vingança.
“Não faz comigo, né, Escritor? Vou à praia pra te esquecer, malvado. E vou achar quem faça!”
No quarto do hotel, nua diante do espelho, Leda examinou-se com olhos críticos. Um pouco rechonchuda talvez, mas era um mulherão, com seios magníficos e uma bunda que era um convite ao pecado. Colocou um mini biquíni, um verdadeiro atentado ao pudor, enrolou-se num pareô e partiu para o ataque.
Meia hora depois, enquanto dourava na areia, surgiu seu alvo. Era um carinha tudo de bom, sarado, que sentou a seu lado e puxou conversa. Ela respondeu com um sorriso que prometia mil coisas, ele só faltou babar. Declarou que tinha 29 anos, ela não mencionou sua idade. Conversaram, flertaram, beijaram-se (primeiro um selinho, depois um tórrido beijo de língua) e ficaram de se encontrar num barzinho próximo, às 19 horas.
Novamente sozinha, enquanto era homenageada pelos olhares pidões dos moços, Leda pensou: “Ah, Escritor, vais ganhar um belo par de chifres. Vão servir de cabide para pendurar teus livros”!
Ficaram uma hora no bar, tomando caipirinhas e beijando-se loucamente. O Carinha (ela pensava nele assim, com uma maiúscula inicial) sugeriu um hotel, ela topou no ato. No quarto, ele caiu matando, reduziu as preliminares ao mínimo e penetrou-a impetuosamente. Ela não gozou na primeira vez, ele sim. Em contrapartida, o homem parecia infatigável, ela teve muitos orgasmos em três trepadas.
No dia seguinte, na praia, enquanto esperava o Carinha, ela conheceu o Professor (passou a pensar nele assim, com uma maiúscula inicial). Bem mais velho que ela – declarou ter 68 anos –, bem menos atraente que o Carinha, mas com uma conversa inteligente e espirituosa, que a encantou.
– Vamos para outro lugar? – sugeriu, disposta a evitar um encontro meio constrangedor entre o Carinha e seu futuro amante (ela já estava decidida a traçar o Professor).
– Vamos para minha casa. Você vai adorar a piscina.
Na casa, beijaram-se muito (primeiro com doçura, depois com tesão), tiraram as roupas um do outro e brincaram na piscina, tocando-se ao menor pretexto – e mesmo sem. Depois secaram-se e foram para o quarto. O Professor não demonstrou a menor pressa, brincou com a língua em sua boca, pescoço, seios; depois, sábia e vagarosamente, pelas demais zonas erógenas.
“Ele deve ser professor de linguadas”, pensou a moça, deliciada. “Vai fazer bem assim na casa do chapéu!” E retribuiu na mesma moeda, pois era mestra renomada e requisitada em oral.
Muito tempo depois houve a penetração, e Leda chegou ao clímax pela enésima vez.
Bem mais tarde, ela falou:
– Amanhã não posso te encontrar. Tenho de falar com uma pessoa. E depois vou embora.
– Sem problema. Somos amigos nas redes sociais, podemos continuar a brincar – e foi direto ao ponto. – Espero que você goste de sexo virtual…
– Adoro!
Na manhã seguinte, na praia, Leda encontrou o Carinha, arranjou uma desculpa para sua ausência na véspera, recusou o convite para uma trepada de despedida (“uma rapidinha, gata”) e combinaram de namorar online. Depois disso, ela foi para o hotel, tomou banho, arrumou a bagagem, pagou a conta e voltou a sua cidade.
Desde esse dia, Leda é uma devota de sua trindade, com correspondentes bem humanos ao Pai, Filho e Espírito Santo. O Filho é o Carinha, que ainda tem muito a aprender nas artes virtuais. Ele gosta de se exibir, enquanto repete “Olha como você me deixa, gata!”. Toda santa vez. A moça está começando a achar um tédio, mas tolera. “É uma besta a distância, mas um artista ao vivo e a cores”, costuma dizer com um risinho. E já voltou à praia duas vezes para encontrá-lo.
Já o professor é o Pai, responsável pela criação. Ele gosta de vê-la nua, mas depois conduz o amorzinho virtual pelo áudio, descrevendo coisas gostosas que sempre a conduzem a sucessivos orgasmos. “É como se toda vez ele escrevesse um conto erótico só pra mim”, costuma pensar Leda, maravilhada, enquanto se toca.
O Espírito Santo, claro, é o Escritor. Está presente por toda parte, mas sempre etéreo, sem se manifestar (ou se manifestando raras vezes). Não é um Pilatos no Credo, mas falta pouco para isso.
Em tais circunstâncias, Leda arranjou uma divisão de trabalho bastante satisfatória. Em seu coração reina soberano o Espírito Santo, o crush, o Escritor querido. Mas as partes baixas estão reservadas para o Professor e o Carinha, o Pai e o Filho de sua trindade, catedráticos respectivamente de sexo virtual e presencial.