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Escravidão e liberdade

Triste e monótona, a vida nos faz chorar

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Autor/Imagem:
Ray Cunha - Foto Editoria de Artes/IA

Sinto-me desencantado, cansado, ameaçado, liso, velho. Já houve um tempo em que fui pugilista, imortal, com alto poder de gastança, belo na minha loucura. Fui louco apenas porque jamais me ajustei como normótico. Sinto-me um pergaminho esquecido na gaveta de uma mesa empoeirada e torta, bom combustível para o fogo.

Às vezes, sonho voando sobre os jardins da Casa Amarela, prenhe de rosas vermelhas e zínias multicoloridas, ou com leões na praia, ao amanhecer. Eu não sinto medo e eles não me atacam. Às vezes, recebo da mulher amada um sorriso, e, então, me sinto rico. Mas acontece de eu desabar do voo e os leões me atacarem. É verdade que sempre acordo antes que eles me peguem, contudo, o sorriso da mulher amada, que guardei no relicário do meu coração, desaparece.

A velhice é a provação extrema do espírito. Quando não podemos mais beber três dias seguidos, amar uma noite inteira, saltar de asa delta do cume do Pico da Neblina e aterrissar em Copacabana, quando não podemos mais ler todos os livros de Ernest Hemingway e de Joseph Conrad, e não podemos ouvir todos os concertos de Wolfgang Amadeus Mozart, nem sentir o cheiro do mar, o choro dos jasmineiros perfumando o mundo, nem ver o azul verter sangue, é hora de pendurar as chuteiras.

E logo agora, quando me sinto em plena criatividade. Mas para onde vou, se não tenho para onde ir? Talvez prefira morrer na praia – no Espírito Santo, no Rio de Janeiro, em Copacabana? Para quedar os ossos qualquer coisa serve. E para sossegar o estômago, também. Velhos desencantados quase não sentem fome.

Porém o desencanto veio nesta hora amaga. Não sei como os cubanos puderam suportar 67 anos de assassinatos, prisões, roubo, estupro, pobreza extrema, escuridão, fome, doenças, loucura, o horror. Os venezuelanos vêm suportando isto há 27 anos. No Brasil, o Estado rouba a dignidade dos brasileiros desde sempre, mas a situação começou a ficar crítica a partir de 2003. Hoje, mata-se no Brasil como epidemia.

Até os que podiam nos defender foram flagrados no butim e são eles que julgam a si mesmos, portanto, nada vai detê-los. Um novo Senado? Vão prender e chacoalhar os intestinos de todos os políticos bem-intencionados. Tio Sam vai jogar uma bomba aqui e acolá, mas não atingirá o ninho da serpente, nem as lavanderias da Faria Lima.

Ainda verei o Brasil livre dos gafanhotos que o assassinam desde sempre? Verei os assassinos no corredor da morte, ou, pelo menos, pegar perpétua? Inocente! É claro que não. A Faria Lima estará em todos os mercados do globo, na TV Globo, em Nova Yorque; a toga será alçada a símbolo do poder supremo – afinal, de onde saiu a ideia do 8 de Janeiro?

A escravidão será regulamentada e haverá fazendas de crianças, que serão vendidas para o prazer de velhos, mas miliardários, libidinosos. Não saberemos mais quem é homem ou mulher, nas ruas, e teremos que dar nossas casas e apartamentos para a cúpula do Estado, e o Estado dará casinhas para todo mundo e bolsa-família, embora seja proibido constituir família. Nossa ditadura será ainda mais perfeita do que a de Stalin, de Hitler, de Fidel Castro.

A menos que Donald Trump despeje o inferno no coração das trevas da Ibero-América. E se isso acontecer e meus ossos já não estiverem branquinhos, quem sabe ainda terei forças para beber pelo menos uma garrafa de Cerpinha.

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