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Elites assanhadas

Turma do ‘meu pirão primeiro’ aposta no semipresidencialismo

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Foto/Imagem:
Mathuzalém Junior* - Foto Fábio Rodrigues Pozzebom

A possibilidade real de eleição de um presidente sem os vícios do passado ou de outro com discurso claro anticorrupção reacendeu na cabeça dos politiqueiros de plantão uma tese oportunista, safardana e, porque não dizer, catastrófica. Refiro-me ao semipreidencialismo defendido pelo presidente da Câmara, deputado Arthur Lira (PP-AL) e por todos aqueles que, como ele, se lambuzam no prato cheio do meu pirão primeiro. A preocupação não é o país ou o povo brasileiro. A preocupação número zero, um e dois é o poder e as vantagens dele decorrentes. Eles (os políticos) e seus próprios bolsos são a única prioridade. O resto não tem pressa. O povo pode esperar. A proposta é tão indecorosa, sórdida, mesquinha, indigna e chula que até mesmo o pior presidente da história recente do Brasil se insurgiu contra ela. E não é para menos.

A ideia da malandragem do Congresso é uma ação entre amigos. Simples assim. O sonho antigo de Arthur Lira e comandados é eleger um primeiro-ministro entre os parlamentares para dividir o poder com o presidente eleito. Nesse sistema, o presidente da República é o chefe de Estado, eleito pelo voto direto do povo. O primeiro-ministro é o chefe de governo. Na prática, o projeto estabelece uma responsabilidade compartilhada do governo, algo como a velha e nem sempre alvissareira meia (não aquela dos meninos de décadas passadas). Trata-se de mais uma movimentação nos bastidores da política às vésperas de um ano de eleição, na qual os interesses econômicos e das elites brasileiras estão ameaçados. Em síntese, as elites estão assanhadas.

Para a maioria da população e dos atuais políticos, há poucas dúvidas sobre a verdadeira intenção da proposta defendida por Arthur Lira. Além de cristalinos, os objetivos têm nomes, sobrenomes, endereços, CPFs e siglas partidárias. Obviamente que as elites já perceberam que são remotíssimas as chances de Bolsonaro permanecer no Planalto. Pior ainda são as possibilidades de retorno de Luiz Inácio ou, quem sabe, de surgir como potencial candidato o ex-juiz Sérgio Moro, o mesmo da confusão da Lava Jato. Um ou outro comprovaria minha antiga tese de que, se realmente existe uma terceira via, ela atende pelo prefixo Jair Messias Bolsonaro. Usineiros, agropecuaristas ou grandes empresários, Lira e sua trupe sempre representaram e morrerão representando o que há de mais nefasto na elite política do Brasil.

Eles querem e conseguem o poder a qualquer preço. O retorno é líquido e certo. São “defensores” da democracia, desde que ela não interfira em seus negócios. Ou seja, não passam de democratas de oportunidade, daqueles simbólicos, que mudam e atacam o sistema ao primeiro sinal de prejuízo para suas economias. Baseado nos pressupostos de comando, se o semipresidencialismo fosse realmente nossa salvação por que não pensaram nele há mais tempo? Será que todos os presidentes que já tivemos eram tão ruins a ponto de não perceberem as “vantagens” desse Frankenstein? Também vale registrar que o planeta Terra tem hoje 192 países “registrados” e apenas 32 estão sob o regime semipresidencialista, entre eles a Rússia, França, Portugal, Romênia e Polônia.

Portanto, antes de nos enfiar goela abaixo mais uma porcaria, é preciso mais um milhão de explicações honestas para que sejamos convencidos. Difícil que isso ocorra, na medida em que até mesmo o mito Jair Bolsonaro, aliado de primeira hora de Arthur Lira, avalia a proposição como jogada fora das quatro linhas da Constituição. Sou crítico das formas usadas pelo presidente para governar e se dirigir aos adversários. No entanto, fecho com ele na denominação de “ideia idiota”. “Tem coisa que é tão idiota que não dá nem para discutir”, afirmou o chefe do Executivo, teoricamente um dos grandes beneficiados com as lúcidas loucuras do parlamentar alagoano. Também concordo com Bolsonaro quando ele lança dúvidas a respeito da real necessidade do semipresidencialismo. “Será que eles querem acobertar outras coisas?”. O histórico da turma é a resposta.

*Mathuzalém Júnior é jornalista profissional desde 1978

 

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