MEMÓRIA HERDADA
UM SÉCULO DEPOIS, GIOVANNI MARCHI AINDA SOBREVIVE NA MEMÓRIA
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Rio de Janeiro, primeiro dia da Oitava de Páscoa de 2026. Hoje faz cem anos que o meu tataravô, o italiano Giovanni Marchi, morreu. Depois de uma vida de lutas e uma certa aventura, de criar muitos filhos e sofrer vários dramas pessoais, resolveu, voluntariamente, abster-se da vida que levava e partiu em direção ao mistério, para o nunca mais.
Meus avós maternos, ambos seus netos, e outros contemporâneos contavam-me suas histórias, e eu ficava fascinado. Como o jeito com que pedia as compras do armazém da cidade, sem se apear do cavalo, limitando-se a jogar, do lado de fora, uma lista sobre o balcão, que era atendida no dia seguinte. A fama de valentão, que não levava desaforo para casa. O amor pelos netos, especialmente os órfãos que criava, e pelos filhos. O vinho com pão picado que consumia no café da manhã. O fato de não fumar, apesar de produzir cigarros em sua fazenda, mas ter o hábito de cheirar rapé. O pássaro preto de que cuidava, o medo que as crianças sentiam ao vê-lo de chapéu e usando uma capa que o cobria todo.
Naquele tempo, os únicos indícios materiais que eu possuía de sua vida eram um amarelado recorte de jornal falando, de forma literária, sobre sua morte, o pequeno retrato de louça no cemitério de Paraíba do Sul, que caiu do lugar e eu nunca mais recoloquei, mostrando-o de luto cerrado, grandes bigodes e um chapéu, e os escritos da lápide sobre o local onde fora enterrado,. Em tom lacônico, informavam apenas seu nome, traduzido para o português — Giovanni virara João —, as datas de nascimento e morte, e a frase que expressava que aquele jazigo lhe havia sido preparado pelos filhos que o sobreviveram.
Muitos anos depois, vieram as pesquisas genealógicas, com muitas descobertas interessantes sobre sua vida, inclusive a de que a data de nascimento gravada na lápide estava errada: ele nascera um ano depois, em 1862. Conheci o nome de seus pais, seus avós, a data exata em que se casou e, depois, saiu de Santo André de Cavasagra, no Castelfranco Vêneto, para nosso país. Como se estabeleceu aqui, primeiro em Rio Preto, Minas Gerais, na localidade de São Sebastião do Barreado. Depois em Porto das Flores, Rio das Flores e, finalmente, na cidade onde conquistou sua Fazenda da Chacarinha, viveu até o fim da vida e descansa em paz.
O centenário de morte do meu antepassado mais remoto que chegou ao Brasil traz-me uma reflexão sobre o esquecimento que o tempo impõe aos que se vão. Passados tantos anos, os lugares em que ele morou não guardam mais nenhum indício de sua passagem por este planeta. Seus objetos pessoais, que não devem ter sido muitos, foram completamente dispersos, e sabe-se lá onde foram parar. As histórias ficaram, em sua maioria, comigo, que as ouvi de viva voz de seus netos e sobrinhos, todos já desaparecidos.
E o que será de mim mesmo, que traço estas pobres linhas, cem anos depois que eu deixar a vida?
Talvez fique um livro, escondido em algum lugar, onde se leia meu insignificante nome na capa. Talvez um descendente tenha ouvido alguma história curiosa, triste ou engraçada sobre mim. Quem sabe, numa gaveta qualquer, remanesça um convite de formatura onde eu haja figurado como professor homenageado ou patrono de alguma turma da faculdade onde dou aula?
Provavelmente, meus bens terão se dispersado, os objetos cuja memória mais me toca estarão desaparecidos, pois ninguém guardará tais inutilidades. Serão conservados somente se algum descendente meu se interessar tanto por essas biografias de gente comum como eu me interesso. Do contrário, nada restará de mim, além de uma inscrição na sepultura onde me deixarem mineralizar sossegado, se isto chegar a ser feito.
E, no entanto, enquanto estou vivo e cumpro a minha parte na grande cena do mundo, sinto-me pleno e forte, ainda mais porque posso escrever, ensinar e, sobretudo, amar sem reservas. Talvez seja essa, no fim, a única resposta possível ao esquecimento: viver de tal modo que alguma coisa de nós mereça ficar, ainda que fique mal, truncada, incompleta, à mercê da memória alheia. Pois a morte não nos apaga de uma vez. Vai nos gastando devagar: primeiro a voz, depois os gestos, depois o rosto, depois as datas. Até que reste apenas um nome, às vezes nem inteiro, e uma ou duas histórias suspensas no ar. Giovanni virou João e, ainda assim, permaneceu. Se comigo acontecer o mesmo, não será pouco. Bastará que alguém, um século adiante, pare por um instante diante do meu nome e imagine que ali houve um homem que amou, ensinou, escreveu e passou pela terra.
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Daniel Marchi é poeta e contista, editor de Notibras, advogado e professor no Rio de Janeiro.
Instagram: @prof.danielmarchi