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Cultura

Uma longa e angustiante viagem para curar a fossa

Foto/Divulgação
Luiz Zanin Oricchio

O rapaz é abandonado pelo namorado e, em vez de curtir a fossa pelas baladas da vida, resolve iniciar um tour pelo mundo. Eis aí a linha narrativa da simpática comédia romântica gay 45 Dias Sem Você, de Rafael Gomes. O protagonista também se chama Rafael (Rafael de Bona) e, diante da separação, visita amigas e amigos que moram, na sequência, em Londres, Coimbra, Lisboa, Paris e Buenos Aires. Um périplo breve, porém refinado, quase um circuito Elizabeth Arden da dor de cotovelo.

O “clima” estético é o de um naturalismo suave, que lembra o de uma sitcom. Como se o diretor optasse por registrar “a vida como ela é”, tanto nos diálogos como na maneira de enquadrar os diversos personagens contra a moldura das cidades ou dos apartamentos onde vivem. Nada parece estilizado. Tudo parece natural. E clean.

Essa “limpeza” dá o tom do filme. Um ambiente interpessoal chique em que se pode conversar de males de amor em meio a citações literárias e preocupações profissionais. O segmento em que se movem é o artístico, com direito a citações de Shakespeare e Julio Cortázar. Aliás, Rafael, o personagem, impõe uma regra aos seus interlocutores, a de nunca, jamais, sob hipótese alguma, nomear aquele que o deixou na mão em troca de um antigo namorado que também vive no exterior. A máxima dica é que o ingrato tem o mesmo nome do “segundo soldado” da peça Hamlet. Confiram.

No mais, trata-se de uma história de deambulação, de movimento, se quiserem. Não se trata apenas de um road movie sentimental, mesmo porque os deslocamentos se fazem por via aérea. Mas, sobretudo, porque os road movies de verdade valem-se da mudança de paisagem e dos incidentes de rota para sinalizar a transformação do personagem. No entanto, em 45 Dias sem Você, o arco dramático é quase inexistente. Rafael vai e volta do mesmo jeito, ou pelo menos é o que sentimos como espectadores.

O longa não deixa de ter certo encanto com seus incidentes de viagem que, de certa forma, tiram o personagem, mesmo que um pouco, do seu sofrimento autocentrado – a dor, como se sabe, opera próxima demais ao ego e transmite àquele que a sente a ilusão de ser o centro do mundo.

Talvez seja esta a origem da má vontade de certos meios em relação ao filme. “Limpinho demais, egocêntrico, sem consciência de problemas mais graves”, ouviu-se (e leu-se) nos meios da crítica. Esses comentários não deixam de ter certa razão. Sentimos falta de maior aprofundamento de Rafael em relação ao seu deslocamento por vários países. Certas situações têm graça, como a sua dificuldade de comunicação com a dona da casa que aluga um quarto à sua amiga. Mas continuamos com a impressão de que ele não está de todo lá e que os cenários de Londres (no caso) são mais decorativos do que seria a imersão numa realidade diferente, que poderia, por isso mesmo, perturbá-lo e modificá-lo. Tal percepção se repete pelas outras cidades onde passa.

Isso não quer dizer que o filme não tenha méritos ou qualidades. É agradável de ver e traça um quadro interessante do universo jovem (porém nem tanto) de uma classe média intelectualizada, plugada no mundo moderno e que muitas vezes sai do país em busca de alguma outra coisa. Em geral, nem sabem bem o quê, mas existe esse impulso de descoberta, de experiência no exterior, que fascina muita gente, em especial em certa faixa etária, antes da chegada de compromissos maiores como empregos fixos, casamentos e filhos. O filme faz uma breve passagem por esse processo de auto-exílio que, nesses casos, não passa, em geral, de busca de si mesmo a partir de um ponto de vista exterior, isto é, fora do seu país de origem. É pena que isso seja mais insinuado que explicitado. Falta aprofundamento.

E esta falta de profundidade talvez se reflita na ausência de maturidade do protagonista, o que nos leva muitas vezes a supor que estamos assistindo a uma história adolescente, o que não é o caso. A tentativa de articulação com o mundo adulto não se dá por situações dramáticas consistentes, mas por diálogos que querem soar inteligentes, mas, por artificiais, só conseguem contrastar com o naturalismo da filmagem. Não a toda hora, mas vez por outra o espectador é brindado com citações de Nietzsche e Barthes, além dos já citados Shakespeare e Cortázar, este autor do clássico Rayuela (O Jogo da Amarelinha), e que tem muito a ver com esse tema da expatriação voluntária – mas então num bordado cheio de vida e de fato lúdico e adulto.

Em registro discreto, o trabalho de atores é bom, a começar por Rafael de Bona, com destaque também para as personagens femininas vividas por Júlia Correa e Mayara Constantino.

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