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Cultura

Uma série que coloca o mundo de cabeça pra baixo

Carolina Paiva, Edição

Uma série para colocar o mundo, que já está de cabeça pra baixo, literalmente de ponta-cabeça. E tudo começa no primeiro episódio de Years and Years, uma narrativa incrivelmente rápida bastante veloz. Essa produção britânica da HBO com BBC é bem diferente do que costumamos assistir. E haja suspense, aliado à imaginação dos telespectadores.

São seis capítulos da série de Russell T Davies que tenta antever o futuro mais imediato do nosso mundo, com suas transformações políticas, tecnológicas, ambientais e sociais. Enquanto o mundo pega fogo, a série acompanha a rotina ordinária da família Lyons, que vive em Manchester. Uma abordagem um tanto ambiciosa, em comparação com a narrativa de Black Mirror, em que se discute a natureza humana ampliada pelas inovações tecnológicas ou, quem sabe, com as conspirações políticas de Chernobyl e de imigração como em 3%.

Em Years and Years, tudo é tema, das eleições presidenciais à extinção das borboletas, e a explicação para essas coisas não importa tanto. Talvez esse seja o principal mérito da produção: as transformações batem na porta da casa dos Lyons sem se apresentar. O que chega à família é a consequência de um mundo que respeita uma nova lógica: o caos.

Assim, é possível perceber em cada membro da família a representação de temas urgentes, como a imigração na Europa, o racismo, e o impacto das novas tecnologias. Tudo isso sem perder o bom humor. Quando Bethany (Lydia West) conta aos pais que tem a sensação de que seu corpo não é seu, os pais da garota adotam uma atitude positiva e dizem compreender que “tudo bem a filha ser trans, outros tempos”. Na cena seguinte, a reação da garota vai demonstrar que, bem, de fato são outros tempos e o passado tem pouco a contribuir.

O mesmo ocorre quando Rosie Lyons (Ruth Madeley) aceita um pedido para sair com um rapaz. Na casa dele, a moça descobre que o homem tem um robô, ou melhor, uma robô feminina, destinada aos serviços diários da casa. Mas não é só, a androide também o atende em outras necessidades.

Enquanto brinca com as possibilidades da tecnologia, a série constrói um grande trunfo: A presença da atriz Emma Thompson. Ela interpreta Vivienne Rook, uma líder populista em ascensão. Não é preciso citar nomes, mas não faltam referências reais e atuais no mundo. Seu perfil é o de uma candidata que faz declarações polêmicas, usa o discurso de ódio aos estrangeiros, às artes e que entra no debate por “falar o que pensa”. No primeiro episódio, o nome do futuro partido de Vivienne nasce de sua falta de decoro ao pronunciar um palavrão durante uma entrevista na televisão.

Essa inteligência voltada para o caos ganha projeção com as redes sociais, principal motivo de choque e repulsa para um dos grandes heróis da série, o romântico Daniel Lyons (Russell Tovey). Funcionário da prefeitura local, o rapaz trabalha no departamento de habitação, dando assistência à onda de imigrantes que desembarca na cidade. Vivendo em um casamento morno com Dino (Ralph Cousins), ele se apaixona por um imigrante. A partir daí, a série faz um giro pela Europa retratando uma política de imigração cada vez mais dura, que rejeita e combate os não europeus que desejam viver no continente.

Daniel tem o apoio de toda família, inclusive de seu irmão mais velho, o consultor financeiro Stephen (Rory Kinnear). Casado com Celeste (T’nia Miller), ele vai testemunhar sua vida confortável mudar. A especulação que fez sua carreira crescer não vai salvá-lo, já que até mesmo os bancos não estão resistindo a tantas tragédias.

A quarta filha dos Lyons é Edith, uma ativista que vive longe da família. Ela se torna testemunha de um conflito entre os EUA e a China que promete agitar o mundo.

Desse modo, os Lyons recriam a cara de uma sociedade comum, cheia de defeitos, diferenças, preferências políticas e hábitos. Enquanto cresce nas pesquisas, Vivienne é adorada por Rosie, já que se trata de uma mulher forte e independente. O que é bastante legítimo. A opinião de Daniel é distinta, ao entender que o pensamento da candidata em relação aos imigrantes interfere em sua relação com o namorado estrangeiro.

Na série, os velhos partidos serão colocados em xeque e o que veremos é um exercício de futurologia bastante apocalíptico e com palpites curiosos: Estoura uma Terceira Guerra Mundial, Donal Trump é reeleito, a Alemanha e o mundo lamentam a morte de Angela Merkel e a BBC encerra suas atividades.

O que permanece como resistência ao fim do mundo é a união da família Lyons. Cada personagem, com seu drama pessoal, oferece um ponto de vista sobre os desafios de se sobreviver nessa barbárie. Seja pela vida do gay apaixonado por um imigrante ou pelo pai de família que sucumbe ao trabalho, a série resgata o afeto familiar como um importante escudo de sobrevivência.

Mesmo assim, é uma pena que Years and Years não seja perfeita. A série não termina de maneira coerente, antes com um último episódio bastante otimista, quase infantil. Não se trata de uma má notícia. Uma vez que a borboleta bateu suas asas, tudo pode acontecer.

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