Boulevard 21 de Abril
Vê lá, Brasília sexagenária… não vá se curvar à elegância de suas meninas
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Ser chamado de louco, em geral, não deve assustar ninguém – pelo menos em um primeiro momento. Eu mesmo acho que nem ligaria. Por que chamariam de louco o porta-voz de mais um dos inúmeros pensamentos diferentes, esquisitos, incríveis e até loucos sobre Brasília? Uma cidade que nasceu e se alimenta de algo que beira a loucura: a surrealidade.
Peço licença pela “poética licença” — que, mesmo não sendo poesia, serve para afirmar que uma cidade que abriga o surreal em suas entranhas tem a surrealidade correndo em suas vias abertas de capital latino-americana.
A “Oitava Maravilha”, como é descrita no hino Brasília, Capital de Esperança, que cantei muitas vezes junto a milhares de alunos em “Horas Cívicas” nas escolas públicas do DF nos anos 1960 e 1970. Essa oitava maravilha, obra que encanta o mundo inteiro, tem no seu traçado o indefectível avião e, na asa Sul, a icônica W3 Sul.
Essa mesma W3 Sul foi o ponto central de uma conversa que tive com meu saudoso amigo, o jornalista Celso de Marco, pouco tempo antes de ele partir no “trem para as estrelas”. Eu concluía o roteiro do documentário sobre a história das rádios e dos radialistas de Brasília, quando fomos surpreendidos pelo rumo da prosa: houve um tempo, segundo relatos, em que o programa de rádio do Meira Filho, na Rádio Nacional e depois na extinta Rádio Alvorada, alcançava índices de audiência superiores a 70%.
Na prática, daria para uma pessoa ir caminhando desde o Setor Comercial Sul até a 516 Sul, passando por antigos estabelecimentos como o Supermercado Serve Bem, as Casas Huddersfield, as Casas Nordeste, a FOFI, a BI-BA-BÔ, o Cine Cultura, o Slaviero, a Casa do Atleta, até o último comércio da esquina final, pela minha memória: o Automóvel Clube do Brasil.
Em cada loja, a partir das 10h, havia pelo menos um rádio ligado no programa do Meira Filho. Com isso, sem precisar carregar nenhum aparelho, a pessoa poderia acompanhar toda a envolvente programação radiofônica. A Avenida W3 Sul era o coração de Brasília. Mais que um centro comercial — que foi sucumbindo gradativamente com a chegada inevitável dos shoppings e se degradando até a situação de penúria em que se encontra —, ela é um símbolo. Muitos projetos de revitalização e ressignificação já foram propostos, inclusive o do arquiteto Frederico Flósculo, professor da UnB, mas nada foi adiante.
Entre as ideias iluminadas, lembro-me da implantação do Veículo Leve sobre Trilhos (VLT), que funciona com sucesso no Centro do Rio de Janeiro e em outros locais; a instalação de cafés e quiosques entre jardins ao longo da avenida arborizada; tudo lindo demais e, talvez, surreal.
Neste 21 de abril de 2026, evoco o saudoso companheiro Jorge Ferreira e seu Mercado Municipal de Brasília, na 509 Sul, entre tantas outras “loucuras” já propostas, para lançar um apelo: “Salvem a W3 Sul”. Uma avenida que, em seu coração, acolhe a Praça 21 de Abril, simbólica por carregar o nome da data marcante do aniversário da capital. Que tal, Avenida 21 de Abril – W3 Sul? E que, se não tiver que ser esse o nome do projeto, que não seja; afinal, o nome é o que menos importa.
Parabéns, Brasília, por seus bem vividos 66 anos! Aceite um carinho deste carioca que tanto lhe ama e que lhe é grato por ser o berço dos meus quatro filhos e seis netos. Espero que continue a ter essa grandeza e não se curve à “deselegância discreta de suas meninas” ou à “moda e o charme de Paris”.
Vida longa, Brasília!