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Amigos

Versão (um pouco) mais leve de um conto da pesada

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Autor/Imagem:
Cadu Matos - Foto Francisco Filipino

André tinha 32 anos, um casamento recém-desfeito e uma grande amiga, Mara, colega de trabalho e da Escola de Comunicação da USP.

Tudo começou no final de uma festinha na casa de Mara. Houve alguns baseados e muita bebida alcoólica para animar a moçada, que era mais etílica que qualquer outra coisa. Quando quase todos haviam ido embora, André avistou Mara de pé sobre uma cama, num quarto colado à sala, bem diante dele. De repente, a moça olhou firme em sua direção e, desabotoando a frente do vestido, mostrou-se nua por uns dois segundos.

André custou a acreditar. “Ela estava de calcinha da cor da pele, foi isso”, pensou. “E devia estar caindo de bêbada.” Mas no fundo sabia que aquela natureza viva fora criada em sua homenagem. Logo em seguida despediu-se (Mara já estava com o vestido comportadamente abotoado) e foi para casa.

Na noite seguinte, passou no apartamento da amiga. Beberam todas, conversaram muito, até que ele foi ao banheiro. Ao voltar, André sentou-se de novo no chão junto a Mara, disposto a continuar o papo. Foi então que ela investiu:

– Você deve estar com gotinhas de xixi na cueca. Deixa que eu protejo a sua calça.

Com um sorrisinho sacana e fazendo gestos exagerados, como uma personagem da commedia dell’arte, Mara usou dois dedos em pinça de cada mão para erguer-lhe um pouco a calça na altura da virilha, cortando o contato do tecido com a cueca. Ao fazê-lo, roçou de leve a mão no membro de André, numa carícia insinuante. Depois retomou o fio da conversa, como se nada houvesse acontecido. Atordoado, ele deu meia dúzia de respostas idiotas e, na primeira pausa do papo, despediu-se.

“Sou um imbecil!”, recriminou-se. “Eu devia ter dado um sorriso tão sacana quanto o dela e falado que, pra secar legal, tinha de afastar o cacete da cueca. E que, pra secar de verdade, o melhor meio era usar ar quente, soprando sobre ele – mas sem tocá-lo, com todo o respeito. Isso, no mínimo, apimentaria ainda mais essa loucura entre nós.”

Naquela noite, André tocou-se furiosamente, rememorando cada detalhe do que havia acontecido. Tinha certeza de que Mara fazia o mesmo.

No dia seguinte, tão logo anoiteceu, André voou para o apartamento de Mara. Ela estava com os botões do vestido já estrategicamente desabotoados. Foi uma loucura, os dois pareciam dispostos a comprovar que a mente é o mais poderoso órgão sexual. Exibiam-se, tocavam-se; depois, os olhos brilhantes de desejo, os dois apoiaram-se em almofadas colocadas no chão. Mara abriu o último botão.

André colocou a mão sobre o ventre exposto e em fogo da amiga. Emitindo um som entre um gemido e um rosnado, ela lançou-se sobre ele e mordeu seu lábio inferior até tirar sangue. Os dois transformaram-se em animais no cio, que se mordiam, se chupavam, se lambiam e se beijavam, esquecidos de tudo.

Naquela noite, André não foi para casa. Ele e Mara recomeçaram a maratona sexual desde manhãzinha, só a interrompendo para almoçar e jantar. Por sorte o dia anterior fora uma sexta, eles dispunham de dois dias para o tesão baixar e voltarem à normalidade.

Normalidade, no caso, significava trabalhar mal e porcamente o dia inteiro, pensando um no outro (por sorte, estavam em departamento diferentes), sair voando para suas respectivas casas, para um banho e, tão logo anoitecia, um procurar o outro, como um casal de vampiros no cio.

A coisa rolou assim na segunda, terça e quarta-feira. Na quinta, André já avançava para a moça, os olhos vidrados, quando ela o afastou.

– André, temos de conversar.

– ???

– Você lembra do Fábio, meu ex? Ele me ligou hoje, no trabalho. Está a fim de voltar, diz que eu sou a mulher da vida dele. E você e eu, a gente é mais amigo que qualquer outra coisa…

“Amigo? Claro que sim”, pensou André. “Pau amigo, dedo amigo, língua amiga”. Mas continuou em silêncio.

– Então as trepadas de hoje vão ser as últimas. Por algum tempo, pelo menos – concluiu, com o risinho sacana que André adorava.

Naquela noite, as loucuras foram ainda maiores. Transaram furiosamente, desesperadamente, na despedida.

Os dois trilharam caminhos diferentes. Mara casou-se com Fábio, teve três filhos, parou de trabalhar e de cursar faculdade. Considera-se (talvez seja) uma mãe perfeita e uma dona de casa exemplar. Perdeu o contato com André, pensa pouco nele e nunca, nunca, deixa aflorar as lembranças daquelas noites de loucura. Já André salta de relacionamento em relacionamento, mas no fundo resignou-se à solidão. Pelo menos até a noite em que uma ficante lhe dirija um sorrisinho sacana, coloque dois dedos de cada mão em pinça e diga as palavras mágicas:

– Você deve estar com gotinhas de xixi na cueca. Deixa que eu protejo a sua calça.

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