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O embate final no tribunal

Versões conflitantes marcam o 5º dia do júri da maior chacina da capital

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Autor/Imagem:
Salete Sampaio - Foto Divulgação

O Tribunal do Júri de Brasília vive momentos de extrema tensão nesta sexta-feira, alcançando o quinto dia de julgamento daquele que é considerado o maior crime da história da capital federal. No banco dos réus, cinco homens respondem pela execução brutal de dez membros da mesma família, em um plano que chocou o país pela frieza e crueldade.

O clima no plenário é de confronto direto entre as teses apresentadas. Após dias de depoimentos, o julgamento entrou na fase decisiva dos debates. Enquanto a acusação reforça a tese de um plano orquestrado para dizimar a família e tomar seus bens, as defesas tentam, de forma isolada, desvincular seus clientes da autoria direta dos assassinatos.

Os interrogatórios dos réus, que duraram dois dias, foram o ponto alto das divergências. Sem poder acompanhar o depoimento uns dos outros, os acusados apresentaram narrativas que frequentemente se anularam. As estratégias variaram entre o silêncio absoluto, a confissão parcial de crimes patrimoniais e a negação completa de envolvimento nas mortes.

Gideon Batista de Menezes, apontado pelo Ministério Público como o mentor intelectual e líder do bando, surpreendeu ao se declarar “vítima”. Morador da chácara de uma das vítimas, Marcos Antônio, Gideon afirmou que foi coagido a participar das ações e tentou transferir a culpa para Thiago Belchior, uma das próprias vítimas da chacina.

A tese de Gideon, contudo, é isolada. O Ministério Público sustenta que ele não apenas planejou, como participou ativamente do esquartejamento de Marcos Antônio e da coordenação do cativeiro. Para a acusação, a tentativa de culpar Thiago é uma estratégia desesperada para confundir os jurados e manchar a memória dos mortos.

Horácio Carlos Ferreira Barbosa, outro réu central, optou pelo silêncio. No entanto, sua defesa técnica foi enfática ao afirmar que, embora as mortes sejam um fato inegável, não existem provas cabais de que ele tenha puxado o gatilho ou executado as vítimas. A estratégia foca no princípio da dúvida em benefício do réu.

Já Fabrício Silva Canhedo admitiu uma participação limitada. Segundo seu depoimento, ele aceitou ajudar no roubo porque precisava de dinheiro para uma cirurgia do filho. Ele confessou ter cuidado do cativeiro e preparado comida para as vítimas vendadas, mas negou saber que o desfecho do plano seria a execução de crianças e adultos.

Ao final de sua fala, Fabrício emocionou-se e pediu perdão às famílias das vítimas, afirmando ter deixado o grupo ao descobrir as primeiras mortes. Diferente de Gideon, ele em nenhum momento corroborou a versão de que Thiago Belchior estaria envolvido nos crimes contra a própria família.

Carlomam dos Santos Nogueira trouxe mais um elemento de conflito ao confessar o tiro que matou Marcos Antônio. Segundo ele, o disparo foi “acidental” durante um embate físico após a vítima já estar rendida. Ele também afirmou ter sido convidado por Fabrício para a “fita”, versão que Fabrício nega veementemente em seu depoimento.

O quinto réu, Carlos Henrique Alves da Silva, admitiu apenas ter participado de um roubo contra Thiago Belchior para acessar aplicativos bancários. Ele alegou que deixou o local com Thiago ainda vivo e que desconhecia qualquer intenção de homicídio, tentando reduzir sua pena a um crime de menor gravidade.

A divergência entre os réus gira em torno de três eixos fundamentais para o conselho de sentença: quem era o verdadeiro líder, qual era o objetivo final do plano e quem efetivamente executou cada uma das dez vítimas, que incluem três crianças de seis e sete anos de idade.

Segundo a denúncia do Ministério Público, o crime foi um “plano cruel e torpe” que começou a ser desenhado em outubro de 2022. O grupo teria se associado com o objetivo de extorquir a família e tomar posse de valores oriundos da venda de imóveis e economias pessoais.

A ordem cronológica dos crimes revela uma logística de terror. As vítimas eram sequestradas em ondas e levadas para um cativeiro em Planaltina. Enquanto eram mantidas sob ameaça, os criminosos utilizavam os celulares dos sequestrados para enviar mensagens falsas, evitando que parentes procurassem a polícia.

A primeira fase do crime envolveu Marcos Antônio, sua esposa Renata e a filha Gabriela. Marcos foi morto ainda em dezembro de 2022. Na sequência, Cláudia Regina e sua filha Ana Beatriz também foram rendidas e levadas ao mesmo cativeiro, onde sofreram pressões para entregar senhas bancárias.

O ápice da tragédia ocorreu em janeiro de 2023, quando Thiago Belchior, Elizamar e seus três filhos pequenos foram atraídos para uma emboscada. Segundo as investigações, Elizamar e as crianças foram queimadas dentro de um carro em uma rodovia em Goiás, em uma cena que chocou os peritos pela violência.

Nesta quinta-feira, o Ministério Público apresentou suas considerações finais, detalhando as provas técnicas e os depoimentos que ligam os cinco réus ao massacre. A acusação indicou que as provas são robustas o suficiente para dispensar o tempo de réplica, confiando na condenação total do grupo.

Hoje, sexta-feira, é o dia destinado às defesas. Cada advogado terá 50 minutos para tentar convencer os jurados de que seus clientes possuem responsabilidades distintas ou que não há provas suficientes para a condenação por homicídio qualificado. O desafio das bancadas será administrar as contradições ditas pelos próprios réus.

A expectativa é que o veredito saia ainda entre o final da noite de hoje e a madrugada de sábado. Os jurados, representantes da sociedade civil, estão isolados e terão a missão de responder a uma série de quesitos sobre a materialidade e autoria de cada uma das dez mortes.

O caso da “Chacina do DF” tornou-se um marco jurídico pela complexidade da investigação policial e pelo número de vítimas de uma mesma linhagem familiar. A cidade acompanha o julgamento com comoção, aguardando o desfecho de um dos capítulos mais sombrios da segurança pública local.

Se condenados por todos os crimes que incluem homicídio qualificado, ocultação de cadáver, roubo e associação criminosa, as penas somadas dos réus podem ultrapassar centenas de anos de reclusão, simbolizando a resposta do Estado a um crime de proporções inéditas.

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