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Frutos do mar

Vitória nos jogos da bola e da política só leva quem escala bem

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Foto/Imagem:
Wenceslau Araújo - Foto Rovena Rosa

A uma semana da diplomação e a exatos 28 dias da posse do presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva, um cenário novo vem ocupando a cabeça oca da maioria dos patriotas encastelados em frente aos quartéis brasileiros. Novo, mas nada relevante, embora tenha causado pavorosos comichões nos mais fanáticos. Para essa “tchurma”, a “inesperada” vitória de Camarões sobre a Seleção Brasileira, ainda sob os auspícios de Jair Messias, é o principal fato gerador da coceira nas partes baixas do eleitorado bolsonarista. Segundo essa maioria, apesar da distância que separa o Catar do Brasil, a derrota canarinho (a primeira para um selecionado africano) abriu um terrível e preocupante precedente político. E o que pergunta a patriotada que resolveu fazer sombra para generais e coronéis defronte às unidades militares do país?

Já conto. Antes, preciso lembrar que, também aficionados e temerosamente nacionalistas, os graduados de pijama e os oficiais de patentes menores têm idêntico pensamento. Tudo por conta da boquinha e das vantagens conquistadas ao longo desses últimos quatro anos. Para eles, perder um cascalho não faz parte do jogo. Talvez o pior horizonte seja voltar a bater continência para dois civis: o presidente da República e o ministro da Defesa. Esquecem que fizeram isso para um tenente jubilado do Exército. Portanto, é mais razoável aceitar, pois regras são regras. Como diz qualquer ditado produzido após o tsunami do ódio e do preconceito, relaxem que dói menos. Nós, os “comunistas”, aceitamos o pior governo que o Brasil já teve e ninguém matou ninguém.

Foi um lamentável período que nos obrigou a assumir internamente um conturbado estado de calamidade. E quanto a associação entre a derrota do Brasil para Camarões e o assanhamento dos bolsonaristas? Afinal, qual é a pergunta? Está lá reproduzida no Sensacionalista: “Se o Brasil perdeu e ficou em primeiro lugar, por que Bolsonaro também não pode? Não adianta explicar porque o povo do cercadinho não vai entender. Entretanto, vale registrar que, em pouco mais de um mês, camarões é o segundo fruto do mar – um crustáceo e um molusco – que atravessa o caminho do ainda presidente Jair Messias. Não custa repetir que o primeiro – o pior deles – foi Lula. São situações que nem Freud e nem Tite explicam.

Quanto ao jogo desta segunda, 5,, torço para que o treinador não repita a besteira de sexta-feira (2). A história de perder quando podia, na hora certa, é uma desculpa esfarrapada, principalmente porque a mesma história das copas revela que o Brasil jamais foi campeão mundial sem estar invicto. Ou seja, melhor colocarmos desde já as barbas de molho. A exemplo do desgoverno Bolsonaro, cujos erros começaram a aparecer no dia da posse, Tite convoca mal desde a Copa da Rússia. Claro que, assim como as gritantes falhas do mito seriam esquecidas no caso de reeleição, os erros de Tite passarão batidos se o Brasil for campeão. Não acredito, mas vou torcer. E muito. Obviamente que bem menos do que torci pela vitória de Jair Messias.

Na gestão de uma nação ou no comando de uma seleção como a brasileira não há hipótese de se imaginar dirigindo um campeonato interno de escola de quinta série. Presidente e técnico precisam entender que não há ciclos. Ganha quem governa bem e quem escala os melhores no dia do jogo. Nessa fase da Copa do Mundo, perdeu volta para a casa. O mesmo ocorre na política: não se reelege quem não cumpre o que prometeu. Por isso, lamento informar, mas molusco é mais ágil e mais robusto do que o crustáceo. De qualquer maneira, mais uma vez lembrando que, antes da final do torneio, há a posse de Lula, confirmada para o próximo dia 12, levantei esta manhã com ânimo, boa disposição e consciente de que o mau humor não estragará meu dia. Despertei disposto a desejar somente boas coisas aos patriotas e aos “comunistas”.

Saudarei principalmente os que ainda torcem pela virada de mesa eleitoral, isto é, aqueles que, sem trabalhar há quase 40 dias, perderam emprego, mulheres, filhos e certamente devem algumas centenas de reais aos familiares e vizinhos. Tudo porque não aceitam a derrota em um jogo jogado absolutamente dentro das quatro linhas. Que tenhamos todos mais sorte no confronto com os sul-coreanos, inclusive os compatriotas que dia e noite infernizam a vizinhança dos quartéis. Acampados em defesa de um golpe que não virá, deliberadamente os patrícios de araque esquecem a seleção e rezam por um país melhor na hora dos jogos do Brasil. Eles ainda não se deram conta, mas preferível para o Brasil é que eles sigam o exemplo de Bolsonaro e se calem para sempre.

Sobre a pergunta que motivou esta narrativa, a conclusão é simples: desprezo e silêncio são as respostas mais corretas para a idiotice alheia.

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