A princesa e o sapo
Vivia em uma lagoa, alimentada por um pequeno rio de águas cristalinas
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Era uma vez um sapo, grande e gordo, feio pra dedéu. Sapo-cururu, também conhecido como sapo-boi ou sapo-gigante, dos cascudos.
Ele vivia em uma lagoa, alimentada por um pequeno rio de águas cristalinas que, após um curto trajeto, chegava ao mar. Era um lugar lindo, mas o cururu não dava a mínima para isso. Enquanto capturava insetos com sua linguona, enquanto coaxava às margens da lagoa, enquanto fazia uma porrada de girinos com as sapas de sua espécie, sonhava com o dia em que uma princesa viria, o seguraria com suas mãos delicadas, o aproximaria dos lábios e o beijaria. Ele conhecia o conto de fadas, sabia que depois do beijo o sapo encantado virava um príncipe, mas tinha certeza de que isso não iria acontecer com ele. Bem, quase certeza, certeza mesmo, batata, só vendo o que aconteceria, quando (e se) acontecesse.
– Príncipe é o cacete! – dizia sempre. – Não sou príncipe, sou um sapo- cururu, filho, neto e bisneto de sapos-cururus. E é bom a princesa me pegar com cuidado, que tenho glândulas de veneno situadas atrás dos olhos.
Não ia, porém, avisá-la do perigo. Se o veneno a atingisse, azar o dela. O importante era que a princesa viesse, o desejasse, o beijasse, e o sapão realizasse, enfim, sua fantasia sexual.
– A princesinha vai ficar vidrada em minha enorme língua – dizia sempre. – Vou fundo em sua garganta e, se ela me permitir brincar lá embaixo, vai delirar de prazer!
Certo dia, a filha única do rei saiu de seu castelo e foi passear no bosque. Vestia um traje simples, de camponesa, mas confeccionado com tecidos finíssimos. Saltitante, cantarolando uma canção de ninar, aproximou-se da lagoa e avistou o sapo, coaxando na margem.
“Que bicho feio”, pensou. “Tanta feiúra deve ser pra espantar princesas, fazê-las ter nojo e desistir do lance. Mas comigo não funciona, sou uma garota esperta, 15 anos de praia. E de castelo”.
Segurou o sapão com suas mãos delicadas, aproximou-o dos lábios carnudos e beijou-o. Não com a inocência de uma princesinha de contos de fadas, mas cheia de tesão, com a expectativa impaciente de uma jovem mais que rodada.
E a metamorfose aconteceu. O sapo transformou-se em um jovem atraente, nu em pelo, que sua forma anterior, curururesca, não vestia roupas.
– Ueba, funcionou! E ele é bem dotado, graças a meus demônios por pequenos favores!
Enquanto o rapaz tentava entender o que havia acontecido, a princesa tirou rapidamente a calcinha rendada e o vestido de camponesa e pulou em cima do pobre. Ela dirigiu a transa, experiência não lhe faltava. Jovens na flor da idade são resistentes; ele só cochilou por um instante depois de dar duas em seguida.
Era o que a princesinha, rodadézima, esperava. Enquanto o jovem sonhava, um sorriso nos lábios, ela abriu uma delicada bolsinha de camurça, tirou de seu interior uma faca do melhor aço, de cabo de madrepérola – presente dos pais quando completou 15 anos – e o degolou. Observou, fascinada, enquanto o sangue empapava o solo. Depois, arrastou o cadáver até o rio, lançou-o na água e o viu seguir rumo ao mar. Em seguida lavou-se com cuidado, para que nem uma gota de sangue ficasse em seu corpo, vestiu a calcinha rendada, o traje finíssimo de camponesa, e preparou-se para regressar, saltitante, ao castelo, cantarolando a mesma canção da vinda.
Antes de partir, porém, disse a si mesma:
– Nada mal. Três sapos, três rapazes encantados, três trepadas de responsa. E com este último foi a melhor de todas!
E, pela primeira vez, a princesinha psicopata tentou justificar-se, mas com um sorriso que evidenciava sua falta de sinceridade:
– Eles tinham de morrer. Do contrário, iriam dar com a língua nos dentes, inventar mentiras, espalhar que a filha do rei vive dando por aí!