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Brasil

Yes, nós temos vacina. È a chinesa do Doria

*Mathuzalém Junior

Desde a inversão da ordem sobre a crise sanitária instalada no Brasil e no mundo, no início de 2020 (o ano que não começou), ouço palavras, sussurros e frases que denunciam o período mais estúpido de nossa republiqueta. Já ouvimos que todos vamos morrer um dia, que o vírus era só uma gripezinha, que habitamos um país de maricas – um insulto claro aos homossexuais – e que não devemos tomar a vacina contra o Covid-19. O problema é que nada disso foi dito por uma besta fera, mas pelo presidente de um dos países mais afetados do mundo. Hoje, menos de um ano após o primeiro óbito, somamos mais de 4,5 milhões de infectados e 210 mil mortos. Na avaliação do nosso líder populista, esses dados são absolutamente irrelevantes.

No período mais crítico da doença, Jair Bolsonaro já estava mais desorientado do que bêbado em festa de cegos. Era véspera do primeiro turno das eleições municipais, pleito que ele usou para “emprestar” prestígio a alguns candidatos de capitais. Emprestou e recebeu de volta derrotas quilométricas em São Paulo e Rio de Janeiro, entre outras cidades. De acordo com o resultado, dos 63 candidatos para os quais indicou apoio só 11 vereadores e 5 prefeitos foram eleitos. Não são números nada alvissareiros para um presidente que abandonou definitivamente o trabalho humanitário de salvar vidas para dedicação exclusiva às eleições de 2022. O caminho ainda é longo e, avaliando os dias atuais, parece muito tenebroso para as pretensões bolsonaristas.

Acho que, assim como eu, a maioria da população, inclusive alguns seguidores do presidente, decidiu fazer ouvido de mercador. Como vivente antigo, mantive a rotina de acordar cedo à espera do avião, caminhão, kombi ou motocicleta da vacina. É o antídoto que nos fará reencontrar a paz, a alegria e a vontade de viver sem medos. Queremos abraçar e ser abraçados. A ansiedade é grande, mas nada comparável às fugas que experimentei e visualizei do carro que pegava velhos. Qualquer buzina diferente me fazia retornar, com a rapidez de um raio, à longínqua infância e ao pavor da mulher barbada e do velho do saco. Eram mitos juvenis que não nos faziam sofrer tanto quanto, na minha terceira idade, o mito criado por fundamentalistas. Meu Deus! Quanta saudade! Éramos felizes e sabíamos.

Não sou, jamais fui e não tenho medo de ser maricas. Mesmo contra meus princípios, rogo praga aos negacionistas porque tenho convicção de que voltarei ao pó como desci à terra: com as pregas. Por isso, se possível tomarei todas as vacinas disponíveis no mercado brasileiro. Isso quando chegarem. Se chegarem a tempo para os mais necessitados. Apesar do pouco caso federal, torço para que venham as chinesas, indianas, inglesas, francesas, russas e até venezuelanas. Só não quero ouvir falar das portuguesas, porque soube que, no português de Portugal, injeção no traseiro tem significado nada republicano para quem acabou de se declarar macho alfa.

Para ódio dos bolsonaristas, por enquanto o que nos resta é a CoronaVac, desenvolvida pela companhia biofarmacêutica chinesa Sinovac, em parceria com o Instituto Butantan, do governador João Dória. Para eles, ainda mais odioso foi a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovar nesse domingo, em rede nacional e com discursos de diretores a favor da vacina, a utilização emergencial do medicamento chinês. Pior ainda foi a Globo ter transmitido ao vivo a enfermeira negra paulista Mônica Calazans recebendo simbolicamente a primeira dose do antídoto em solo brasileiro. Também foi autorizado nesse dia 17de janeiro de 2020 o uso da vacina de Oxford no Brasil, essa ainda sem data prevista.

Oxalá Bolsonaro fique calado (como ficou antes, durante e após a reunião da Anvisa) até a chegada do primeiro grande carregamento. Seis milhões de doses em estoque é quase nada para uma nação de 210 milhões, mas é alguma coisa. O desacordo a respeito de quem pagou pela CoronaVac é irrelevante nesse momento, embora Dória tenha desmentido publicamente – sem réplica – o ministro da Saúde, que, horas após a decisão da Anvisa, havia informado à imprensa que o custo da vacina havia sido totalmente financiado pelo governo federal. Mais uma mentira nociva e delirante de Bolsonaro. Pior foi Pazuello divulgar como correta a informação que sabia mentirosa.

Didaticamente, foi uma bela vitória do povo e, segundo analistas médicos e políticos, uma surra da agência em Bolsonaro. Vencidos e vencedores à parte, será uma data inesquecível. Seria melhor se vivêssemos um período de união contra o coronavírus. Que bom se o remédio não fosse recebido como a vacina do João Dória, do Bolsonaro, do Butantan ou do Covas. Poderia ter sido a vacina da vida. Deveríamos festejar como o dia D do renascimento e a hora H da salvação. Comemoraríamos não fosse a insensatez, a estupidez e o tempo perdido para que alcançássemos a primeira picada. Flertamos com a morte durante meses a fio, enquanto nossos sábios políticos disputavam o melhor lugar no pódio do ódio, tentando apurar o olfato para conseguir respirar mais rápido o cheiro de enxofre dos 210 mil cadáveres.

Deus existe, é brasileiro e, graças a Ele, conseguimos e precisamos respirar oxigênio da Venezuela e receber vacinas da China para que conseguíssemos entender que, como arte do possível, a política não deve se sobrepor à vida. A primeira picada não arrefeceu a contenda político-eleitoreira. Triste assistir a infantil disputa pela primazia da vacina entre Dória e o ministro Eduardo Pazuello, enquanto, emocionada, a enfermeira paulista sentia a importância do gesto que certamente representará o fim do martírio para centenas de milhões de brasileiros.

Com menos recursos e dificuldades inimagináveis, a Argentina priorizou o povo e já vacinou mais de 200 mil pessoas. Também populista, o peronismo venceu a balbúrdia radical xiita do Brasil, comandada pelo “genro” de Maomé. Esse grupo xiita, além de se achar mais patriota, desconsidera a lógica. Eles rejeitam qualquer ensinamento que não seja divulgado por Ali, o genro. Para essa turba, Donald Trump é o próprio profeta, ficando para nosso presidente o cargo de legítimo sucessor. Que venha a CoronaVac.

*Mathuzalém Junior é jornalista profissional desde 1978

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