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Araruna

Zé do Macaia passa por apuros na Pedra da Boca

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Autor/Imagem:
Eduardo Martínez - Foto Produção Irene Araújo

Zé do Macaia, ainda rapazola, não era do tipo que corria de assombração. Saía às noites no lombo do Cigano, cavalo que nem de perto parecia de circo. Não por conta dos truques, que não sabia nenhum sequer, mas pela aparência pouco afeita à boniteza. Eram amigos por assim dizer, porém, sem muita conversa. Um resmungava daqui, o outro relinchava dacolá.

Ainda menino, diziam que conversava com os mortos sem saber que já eram defuntos. Quando descobria, achava graça, mesmo porque ninguém nunca havia acreditado naquelas conversas com os que já partiram pro além. Que ficassem todos lá, pois os daqui não estavam com pressa de lhes fazer visita.

Destemido sobre Cigano, não passava aperto. Quer dizer, era avexado com Anita, com quem pretendia se casar. Não naquele dia, talvez coisa de ano ou mais. Precisava conversar com a moça. Aliás, Zé do Macaia era cabra arretado, mas era prudente primeiro tratar do assunto com o pai da donzela.

Mas deixemos de lado esses assuntos do coração e vamos logo para a noite que mudou definitivamente a vida não apenas do Zé do Macaia, mas de toda a gente de Araruna. Pois lá estava o jovem destemido sobre Cigano. Dupla mais altiva não se encontrava por aquelas bandas, ainda mais quando era noite de lua cheia. E era, como afirmam os que ouviram da boca do próprio Zé do Macaia.

Já passava da meia-noite, quando Zé do Macaia quase perdeu o equilíbrio e, se não caiu do cavalo, foi por pura destreza. Cigano, sem motivo aparente, havia empacado que nem burro. E, por mais que o rapaz insistisse, o animal não dava um passo sequer. Nem pra frente, nem pra trás. Empacou justamente numa encruzilhada defronte à Pedra da Boca de Araruna. Ninguém arredava o ânimo de Cigano permanecer com os quatro cascos fincados à terra.

Zé do Macaia, desconfiado de serpente, pensou em apear. Pensou, mas, ao descolar o traseiro da sela, percebeu que havia uma ventania que fazia as copas das árvores e as folhas do canavial bailarem como se ao som da sanfona de Dominguinhos. No entanto, ele não sentiu a brisa em seu rosto.

O rapaz tomou um susto, pois, de repente, surgiu à sua frente uma criatura avermelhada, olhos amarelos, sorriso saturado de maldade. Zé do Macaia não teve dúvida de que estava diante do Capeta. Não teve nem tempo de sentir medo, pois logo a figura desapareceu. Mas o alívio não durou, pois o dito cujo voltou a aparecer, agora montado na garupa do cavalo.

A coragem do Zé do Macaia agora era puro pavor. O Capeta o encarou e soltou uma gargalhada. O rapaz ficou afônico, pois palavras sumiram todas da boca. Pensou em gritar, mas som não havia.

O Capeta sumiu novamente, mas malvado que é, surgiu em pé atrás da dupla. Nova gargalhada, agora mais pavorosa. Deu um tapa na anca do Cigano, que disparou. Zé do Macaia precisou segurar firme as rédeas para não cair, até que, finalmente, chegou ao sítio.

Já era manhã adiantada quando o rapaz acordou e olhou para o pai, que estava ao pé da cama. O velho queria saber o que havia acontecido com o cavalo. Para espanto do Zé Macaia, Cigano estava sem um pelo sequer. O rapaz contou o ocorrido para o pai, que, até onde se sabe, teria acreditado nas palavras do filho.

Se essa história aconteceu dessa forma ou não, ninguém pode atestar. A verdade só Zé do Macaia e o Capeta podem confirmar.

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