Hugo Chávez

Um coração para de bater, mas o povo nunca esquece

Beto Almeida

Há 4 anos, num 5 de março, deixava de bater um coração generoso com os povos e deixava de acionar um pensamento revolucionário, permanentemente vinculado à ação transformadora, enfrentando estruturas arcaicas da Venezuela e da América Latina. Falamos da semeadura do Comandante Hugo Chávez, já que revolucionários desta extirpe não morrem, mas sim florescem e iluminam caminhos para a libertação definitiva do jugo imperial. Hoje, este coração bate no seio do povo e aquela consciência de propagada enriquecedora.

São tantas as facetas inovadoras na forma e conteúdo de atuar de Hugo Chávez que, num artigo, cabem apenas alguns registros desta personalidade que não se apagará da história, para que novas gerações de lutadores sociais tenham elementos claros de um exemplo que permanece despertando ações e de uma consciência revolucionária que se faz, a cada dia, mais necessária.

Suas inúmeras visitas ao Brasil, verdadeiros lampejos de interpretações e de proposições práticas revolucionárias, devem ser semrpre objeto de reflexão, de aprendizagem, porque suas visitas eram uma escola de educação política a céu aberto. Especialmente num momento tão difícil e tão dramático como o vivido agora pelo povo brasileiro, quando os mesmos inimigos de Hugo Chávez atuam para demolir toda uma construção feita durante décadas, a começar pelas conquistas da Era Vargas – por quem Chávez nutria profunda admiração – e continuadas posteriormente, por JK, por Jango, até mesmo na expansão da presença estatal durante o regime ditatorial, e, especialmente, durante os governos Lula e Dilma, quando o Brasil saiu do Mapa da Fome da ONU.

Chávez era sempre pensamento e ação. Suas numerosas vistas ao Brasil sempre deixavam frutos, rastros, noções de políticas integracionistas, introduzindo na cena política a denúncia da atuação desestabilizadora do imperialismo, sobre o que não se deve ter dúvidas. E criava instrumentos alternativos. No Paraná, por exemplo, em cooperação com o governo do então governador Requião e a Universidade Federal do Paraná, fundou a Escola Latino-Americana de Agro-ecologia, com a participação direta do MST, para produzir conhecimentos e técnicas visando uma agricultura sana, sem veneno, acolhendo alunos de todos os países latino-americanos, semeando mais que sementes, a idéia prática integracionista dos povos.

Também firmou convênio com o governador paranaense para uma cooperação entre a Telesur e a TV Paraná Educativa, produzindo conteúdos televisivos em alternativa à baixaria podre imposta pelo mercado à mídia, criando um modo de fazer televisivo questinador da alienação da TV comercial e com a capacidade, conforme argumentava, de “enamorar os povos” por meio da informação e da cultura. Certamente, esta modalidade de cooperação poderia ter sido muito mais amplificada se tivesse contado com a participação da TV Brasil, o que era totalmente possível.

Em outra visita ao Brasil, a Pernambuco, desceu no Aeroporto de Guararapes, no Recife, recitando de cor o lindo texto de João Cabral de Melo Neto, “A manhã”, como forma de elogiar a cultura nordestina, o povo pernambucano e, também, de trazer a literatura e a poesia para o seio da visita que fazia à Refinaria Abreu e Lima, assim batizada com nome de personalidade histórica da revolucionária tradição pernambucana, e que, além de tudo, havia lutado ao lado de Bolívar nas Guerras de Independência da Venezuela no jugo imperial espanhol. Uma empresa bi-estatal, com o nome de um general pernambucano bolivariano, que cruzou os Andes a cavalo para libertar a Gran-Colômbia.

Essa forma simpática de agir, mas informal e despida do pesado protocolo estatal cargo, trazia a informação histórica educadora (quantos conhecem no Brasil a trajetória do general Abreu e Lima?), a informação cultural (João Cabral de Melo Neto recitado de pé, no aeroporto, antes mesmo de bater continência ou de formalismos outros) e com o discurso político que fez do petróleo uma ferramenta da integração econômica e energética da América Latina.

A integração energética foi defendida apaixonadamente por Hugo Chavez em toda a sua constante e necessária gira por todos os continentes, onde denunciava os crimes do imperialismo, sob Bush ou sob Obama, e demonstrava aos povos que o petróleo poderia promover um salto produtivo em toda a América Latina. Indo além do discurso, criou a Petrosul e a Petrocaribe, que ,juntamente com o Banco do Sul, são ferramentas práticas e concretas para a redução das assimetrias históricas, ou, como a expressão que Lula traduziu como , ‘é preciso que todos os povos cresçam juntos”. Para isto são nescessárias e indispensáveis as políticas de estado, como a que permitiu a consturção do Porto de Mariel, ou o Metrô de Caracas. O sonho de Chávez era ir além, reivindicando a construção do Gasoduto do Sul e a Ferrovia do Sul.

Aos ouvidos céticos, argumentava, sempre com sua maneira persuasiva, simples e ardente de defender as ideias transformadoras, que toda a Europa já é praticamente interligada por gasodutos e que ferrovias já cruzam a Sibéria a décadas, unindo território europeu à Asia. Por que não na Amèrica do Sul, argumentava? E sempre mencionava , também, as integrações por meio de hidrovias

Ainda falando de cultura, tive ocasião de presenciar a visita de Chávez, acompanhado da cantora Beth Carvalho, à Escola de Samba Mangueira, Escola fundada Cartola e Nelson Cavaquyinho, quando, além de tocar um surdo como se fosse um menino descobrindo a vida, e de tentar ensaiar alguns passos de sambas com as passistas, falou carinhosamente com o povo mangueirense, lembrando as raízes comuns com a África, a luta de Bolívar contra o escravagismo, a força da cultura negra e sua contribuição libertária, reforçando as políticas estatais de combate ao racismo. E tudo isto com um surdo na mão, depois de beijar a mão de cada uma das passistas da Estação Primeira.

Em visita ao Fórum Social de Porto Alegre, não limitou sua participação no evento ao importante discurso político que fez no Gigantinho e ao encontro com intelectuais e comunicadores alternativos. Realizou também uma simbólica visita ao Assentamento de Taques do MST, onde se produz de forma integrada o arroz, a criação de peixes e de portos, sem o uso de agressivos agrícolas contaminantes. Era mensagem clara, vibrante, com palavras e ação, para todo o mundo, em defesa da Reforma Agrária e do programa de transformações sociais com a participação direta do campesinato nestas mudanças.Sua presença no FSM era mensagem direta aos movimentos sociais do mundo sobre a necessidade de formulação de políticas para sempre aplicadas com a ação política do estado.

Além de tudo, Chávez era e é a expressão viva da existência da correntes militares progressistas e revolucionárias, que deveriam sempre estarem unidas ao povo, em processos democráticos, para, organizados em torno de um projeto estratégico, promover o pensamento integracionista bolivariano ao campo das políticas estratégicas de estado. Além de tudo o que já foi dito acima, e existiriam muitos outros elementos a mencionar, a existência de uma União Cívico Militar foi a base que organizou a Revolução de 1930 no Brasil, construindo , nesta aliança, a Petrobras, a Vale do Rio Doce, a Cia Siderúrgica Nacional, o ITA, o Programa Nuclear Brasileiro, fenômeno político que também houve na Era Perón, retomada pelos Kirchner, que transformou a Argentina numa potência industrial e social.

A unidade cívico militar foi responsável também pela Revolução Inca, no Peru, sob o comando do general Juan Velasco Alvarado, bem como pelo governo progressista militar no Equador e também na Bolívia, onde agora o Presidente Evo Morales, como a mandar uma mensagem ao futuro, funda a Academia Militar Anti-imperialista Juan José Torres, general que comandou o país andino com políticas estatizantes e progressistas, e que, por isso mesmo, foi assassinado pela Operação Condor, quando estava exilado em Buenos Aires. No Uruguai, a Frente Ampla de Esquerda foi fundada e presidida pelo General Líber Seregni.

Chávez sempre mencionava em seus discursos o papel do Coronel Thomas Sankara, que presidiu e transformou Burkina Fasso, construindo até ferrovias com as mãos, mobilizando o povo, a quem o líder bolivariano chamava de o Guevara Negro. A ação política diária de Chávez consistia em aproveitar cada segundo de cada visita, cada declaração, para formar quadros e educar politicamente. Por isso irritava tanto o império….

Nestes 4 anos de sua semeadura, verificamos a presença de Chávez não apenas nestes exemplos mencionados – haveria tantos outros a citar – mas sobretudo na construção da unidade popular e da união cívico militar, são os fatores decisivos que garantem hoje a continuidade da Revolução Bolivariana, tão atacada, permanentemente, pelo império do Norte. Para enfrentar a sabotagem monetária, a crise fabricada do desabastecimento, e manter , apesar de tudo, todos os programas essenciais para o povo, entre eles a valorização do salário mínimo, a construção em massa de casas populares equipadas, com o apoio da Rússia, da China e do Irã – baseando-se no exemplo do Minha Casa, Minha Vida, de Lula e Dilma – é indispensável a aliança cívico militar.

A queda artificial dos preços do petróleo, a guerra midiática da CNN e outras contra a Venezuela, (TV Globo) tudo isso exige unidade e determinação para ser enfrentado como se deve, pois, nenhum país que desafia os poderes imperiais deixou ou deixará de ser atacado criminosamente, como foi feito contra a Líbia de Kadafi, sendo Hugo Chávez um dos principais defensores da revolução líbia, que já havia conquistado os mais elevados Indicadores de Desenvolvimento Humano de toda a África. Foi esta visão internacionalista da luta contra o império que levou Hugo Chávez a propor a criação de uma Quinta Internacional, para organizar a luta dos povos oprimidos e revolucionários em escala mundial.

Assim, ante esta fonte inesgotável de exemplos em que o pensamento está sempre unido à ação, Hugo Chávez permanece como um imenso legado a ser cada vez mais compreendido com uma bussola capaz de orientar os lutadores sociais, os governos populares, que têm na Venezuela e no governo de Nicolás Maduro, um bastião decidido a resistir ao império e a a cumprir o compromisso eterno com as causas deste Comandante que sempre recorria ao canto apaixonado e popular de Ali Primera, interrompendo comícios para cantar com o povo , pelo qual sua voz ecoa ainda hoje por todos os lados, em acordes e poesia, a justa razão da Revolução Bolivariana.

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