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Brasília

Eu, Agnelo. Traindo e mentindo, vou levando e acabando Brasília



Eu nasci predestinado ao sucesso e a ganhar muito dinheiro. Desde pequeno, em Itapetinga, onde fui parido, aprendi a levar vantagem em tudo. Penso mesmo que a campanha publicitária do jeitinho brasileiro, protagonizada por Gerson, foi inspirada em mim.

Minha família é de origem humilde. Meu pai, servidor público do município. Minha mãe, para ajudar na compra da feira, mantinha um salão de beleza em casa.

Tudo isso, porém, é coisa do passado. Hoje tenho as chaves de uma famosa caverna. Basta-me bater as mãos e balbuciar palavras mágicas, como fazia Ali Babá, para que o dinheiro jorre com a força de uma cachoeira.

Meu nome é Agnelo dos Santos Queiroz Filho. Estamos em fins de março de 2014. Ainda sou governador do Distrito Federal. Ouvi dizer que o José Seabra está escrevendo minha biografia não autorizada. Isso mesmo. Ouvi dizer. Mesmo porque, quando se trata do Seabra, eu sempre ouço dizer. Ele deve escrever algumas inverdades. Mas isso faz parte do jogo. Quem sabe pode servir como resposta às muitas mentiras que eu contei (inclusive a respeito dele) ao longo dos meus cinquenta anos de vida. E como menti.

A maior de todas as minhas muitas mentiras não foi dizer ao povo de Brasília que seria um grande governador; que seria probo. Isso foi atemporal, valeu para a campanha, para ganhar a simpatia do povo, ter voto e ser eleito.

Eu menti feio, na realidade, quando disse que não o conheço. Logo ele (estou dizendo a verdade) que compartilhou de momentos memoráveis da minha vida. Sempre o tratei por Seabrinha. Gosto dele. Talvez por isso entendo o fato de ele hoje dizer por aí que não é mais meu amigo. Também, pudera. O que eu fiz de sacanagem com ele, não estava escrito – ao menos até agora. Aliás, sacanagem é meu hobby. Seja com quem for.

Mas, vamos deixar isso de lado. Biografia é coisa séria. As intrigas ficam para quem gosta de fofoca. O importante é me conhecer. Virtudes, eu as tenho poucas – acho mesmo que nenhuma. Mas defeitos, esses eu tenho para vender, como vendi minha consciência, como vendi a confiança que o povo depositou em mim, como tenho vendido uma péssima imagem.

Gostei da ideia de a biografia começar pelos dias atuais. É bom apresentar logo meus podres. Fica a vantagem de, no fim do livro, eu estar nascendo. E serei, como todo bebê, uma criança inocente. Ao menos isso, eu saberei apreciar.

Vamos ver onde eu errei. É fácil descobrir. Para tanto não preciso remoer meus neurônios remanescentes. Já pequeno, reitero, gostava de sair no lucro. E fui me acostumando a isso até virar adulto, embora não necessariamente homem, na concepção da palavra.

Para que você, leitor, tenha uma ideia, lembro em rápidas pinceladas que quando criança – período em que todos nós brincamos de médico, de papai e mamãe – eu trocava com os amiguinhos a vez de examinar as meninas. Como compensação, eu ficava com os piões, pipas e bolas de gude deles. Como você pode notar, esperteza era – como é hoje – meu lema.

Mas, voltemos ao Eu governador – ou um pouco antes, ao Eu candidato. Desnecessário dizer que entrei na disputa com o bolso, se não necessariamente cheio, ao menos com o suficiente para derrotar Geraldo Magela nas prévias do partido. Consumada essa vitória (me resguardo manter sob reserva a que preço) partimos, eu e um seleto grupo de amigos – muitos dos quais, hoje sou forçado a reconhecer, ex-amigos – para colocar a campanha na rua.

A esses velhos camaradas, cujos nomes serão conhecidos ao longo desta biografia, eu fui imperativo: era preciso arrecadar o máximo possível, porque a campanha poderia ser cara e, em caso de derrota – o que, convenhamos, seria improvável –, era preciso ter fôlego para sobreviver até as eleições seguintes.

Os bolsos, portanto, encheram como nunca. Não interessava saber a origem. O que valia era a firme disposição de vender a ideia de que toda contribuição seria devolvida em dobro, embora abatido algum percentual, mediante contratos na pós-posse.

Esse foi o meu mal. Assumi muitos compromissos, menti, traí. E me vi crucificado logo nos primeiros meses de governo, com denúncias que pululavam como uma cachoeira que exalava água podre, embora com um ligeiro aroma de pequi.

Os papéis eram arrecadados por muitos amigos (ou seriam ex?). Não importa. O que vale dizer é que alguns continuam ao meu lado. Um, por exemplo, vende as terras de Brasília a preço de banana para cobrir o rombo com a construção do meu elefante branco de pernas tortas. Outro age como vampiro dos cofres públicos, ao mandar que pacientes dos hospitais do SUS façam hemodiálise em clínicas particulares, que por sua vez apresentam a fatura nem sempre condizente com a realidade do serviço prestado. A área de Saúde, aliás, é um filão. Eu sou médico, sei disso. E esse amigo, que se passou por um dos tesoureiros da campanha, também entende muito bem de como ganhar dinheiro com um jaleco branco.

Sobre os papéis arrecadados, sempre lembro a alguns correligionários que quem tem papel, gasta uma pequena parte com papel. Para não fugir à regra, fiz justamente isso. Afinal, estávamos em plena campanha eleitoral e precisávamos levar nosso discurso ao eleitor. Mandei, portanto, que o coordenador-vampiro dos cofres públicos procurasse um interlocutor capaz de convencer o Seabrinha a se incorporar à campanha. (vixe, mainha, que esse nome não me sai da cabeça). Não foi fácil, mas ele, a quem confiei escrever minha biografia não autorizada, cedeu.

Vou abrir um parêntese. Preciso vasculhar minha memória. Pouco me recordo dessa parte da campanha. Tenho, contudo, a convicção de que uma vez por semana gente do meu comitê se encontrava com Seabrinha no café do Garvey. Lá definiam a pauta de um jornal semanal. E deixavam um pacote cheio de garoupas para cobrir os custos com impressão e a equipe de redação. Entretanto, como as recordações são vagas, vou deixar para contar essa parte da minha biografia mais adiante.

Nota da Redação – Consultados por Notibras, os assinantes do livro ‘Biografia não autorizada de Agnelo Queiroz’, concordaram em que os primeiros capítulos sejam abertos ao público. O autor, jornalista José Seabra, terá a prerrogativa de decidir em que capítulo o livro será destinado apenas para assinantes. A assinatura custa 120 reais. O assinante deve depositar esse valor na conta corrente do autor, Caixa Econômica Federal, Agência 007, conta 4276-1. Trechos do livro (e eventualmente capítulos inteiros) serão editados até três vezes por semana em Notibras.

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