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Brasil

Gaúchos abandonam Porto Alegre para fugir da Copa



Obras incompletas, gastos exorbitantes, ruas interditadas, famílias despejadas, bagunça, assalto a turistas. Para evitar fatos relacionados à realização da Copa do Mundo no Brasil, alguns gaúchos aproveitam o período para fugir de Porto Alegre (RS), uma das cidades-sede.

Um dia antes da abertura da Copa do Mundo, a farmacêutica Caroline Zanoni Cardoso, 39 anos, arrumou as malas e entrou num avião rumo ao país que mais levantou taças do campeonato mundial, depois do Brasil. Na Itália, ela está imersa nas aulas de italiano.

O curso foi um prêmio ganho na escola de idiomas onde estudava, em Porto Alegre. Embora pudesse escolher o período da viagem, fez questão de escapar justamente durante o Mundial. Assim, está distante das coisas que não gosta.

“Com a Copa está tudo muito desorganizado. A gente precisa de mais investimentos é na área da saúde e da educação”, afirma.

Em Roma, a farmacêutica acredita que ainda precisará explicar aos italianos por que deixou o Brasil nesta época. “Acho que eles ficarão impactados, vão me perguntar o porquê. E eu vou dizer por que fugi”, diz. A farmacêutica, entretanto, reconsidera e suaviza: “Mas eu sou brasileira. Estou torcendo sempre pela seleção brasileira”.

Para satisfazer a ânsia dos quase aflitos com a Copa, agências de viagens elaboraram pacotes especiais para resguardá-los de tumultos. Os valores passaram por oscilações até o mês de junho, por conta do aumento do preço das passagens.

De acordo com o presidente da Associação Brasileira de Agências de Viagens (Abav-RS), Danilo Martins, os meses de junho e julho sempre foram lucrativos para as agências. Com a iminência da Copa do Mundo, entre outubro do ano passado e março deste ano houve uma queda nas vendas por causa do encarecimento das passagens de avião. Mas em meados de abril, o valor das passagens amainou, e as agências conseguiram retomar a oferta de pacotes especiais.

A Terra Nova Turismo e Viagens, por exemplo, criou o “Fuja da Copa”, que oferece passeios para a região entre lagos e montanhas da Suíça, Dubai, Deserto do Atacama, Budapeste e outros cantos paradisíacos. Dos cerca de 200 pacotes vendidos, 54% deles têm como destino o Caribe. Com valores que variam de US$ 1,7 mil a US$ 2 mil, os contrários à Copa do Mundo poderão desfrutar da paz e do requinte que Porto Alegre certamente não proporcionará nos próximos dias.

O diretor da Terra Nova, Francisco Beatrice Filho, explicou que o “Fuja da Copa” surgiu quando os clientes começaram a procurar a agência para fazer o trajeto contrário ao dos estrangeiros que vêm prestigiar as seleções. Beatrice Filho contou que as razões para a migração desses porto-alegrenses são inúmeras, todas elas muito parecidas.

“São pessoas que não concordam com o evento, que não querem presenciar os transtornos que ele vai trazer. Elas têm poder financeiro para custear uma viagem desse tipo. E a grande maioria vai viajar na final da Copa mesmo. Querem passar longe do Brasil. Só vão voltar quando a coisa toda terminar.”

Com pouco dinheiro e luxo, alguns buscarão refúgio em um festival de música que ocorre entre 19 e 22 de junho em Santa Catarina, Estado que não recebe os jogos.  Com o argumento de que a Copa do Mundo trará uma série de transtornos, o projeto Não Vai Ter Coca, paródia com a frase favorita dos adversários do campeonato, promete quatro dias de tranquilidade num sítio em Brusque.

Lá, os fugitivos desfrutarão de clima rural de acampamento, poderão praticar pilates no meio do mato, alimentar-se de comidinhas vegetarianas e assistir a shows. Tudo isso por cerca de R$ 40, valor cobrado no primeiro lote de ingressos.

O porto-alegrense Maurício Oliveira, 51 anos, é um dos músicos que vai animar as noites no sítio em Limeira. Saxofonista da banda Velho Hippie, ele garantiu que se tivesse de ficar em Porto Alegre não se sentaria na frente da televisão para assistir ao futebol.

“Os jogos não têm atrativo para mim. Não me emocionam. Acho a Copa meio alienante”, disse.

Uma das frustrações de Maurício é o trânsito de Porto Alegre, que, em sua opinião, desorientará os turistas. “Sem a Copa, o congestionamento já é ruim. A sinalização é péssima, não se sabe para onde está indo. As ciclovias são precárias, os ônibus trafegam em vias que não são para ônibus”, reclamou.

Sem ingresso comprado para o festival, mas com vontade de repetir a experiência que viveu em outros eventos de música, o estudante de Letras da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Caio Rocha, 23 anos, não vê motivos para fincar os pés em Porto Alegre. Contrário ao evento por razões políticas, ele acredita que ficar na cidade e protestar é causa perdida.

 “Se eu tivesse de sugerir ideias de como realizar a Copa, seria tudo diferente. Haveria diálogo com a população, pessoas não seriam retiradas de suas casas”, diz, referindo-se às remoções de famílias que moravam em torno da avenida Tronco, na Vila Cruzeiro.

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