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Cultura

Um documentário, sim, que vale a pena ser visto



Pedro Antunes

Sete meses haviam se passado da maior tragédia da vida de Nick Cave e a câmera já estava diante do seu rosto de novo. O desconforto. A dor. O desamparo. Tudo ainda estava ali. O luto pela perda do filho Arthur, morto ao cair de um desfiladeiro em julho do ano passado, ainda era escancarado. E duro demais.

Chamado pelo próprio artista, o diretor Andrew Dominik foi o responsável por segurar a câmera (em muitas cenas, uma máquina capaz de filmar em 3D e preto e branco) mesmo quando o respeito pela dor do amigo Cave lhe pedia para interromper o registro das imagens. Registrou, com depoimentos e imagens da banda no estúdio, a gravação do álbum Skeleton Tree, o décimo sexto do Nick Cave and the Bad Seeds.

Um disco do qual escorrem as lágrimas de um pai que perdeu o filho, tentando encontrar um pouco de luz entre tanta escuridão. Disso, nasceu também One More Time With Feeling, o retrato das cinzas de um artista em meio ao processo criativo daquele que, provavelmente, é mais visceral da sua vida.

O documentário é uma das atrações da Mostra Audiovisual da SIM, como é conhecida a Semana Internacional da Música de São Paulo, realizada entre os dias 7 e 11 de dezembro, em diferentes pontos espalhados pela cidade. One More Time With Feeling será exibido nos dias 10 e 11, no Caixa Belas Artes. A Mostra ainda inclui os documentários Oasis: Supersonic, aguardada história sobre a banda de britpop de Manchester, e Xingu Cariri Caruaru Carioca.

Nick Cave não gostou de se assistir na tela em One More Time With Feeling, documentário que registra as gravações de Skeleton Tree, o décimo sexto disco dele ao lado da banda Bad Seeds. A questão não é com a própria imagem ou com a exposição de um artista em seu momento máximo de criação mostradas no longa-metragem do diretor neozelandês Andrew Dominik. A experiência nem sequer era uma novidade, já que o ótimo 20,000 Days on Earth, de 2014, também propunha essa mesma viagem pelo universo artístico de Cave enquanto gravava o álbum Push the Sky Away.

No filme, que fará seu debute em território brasileiro como parte da Mostra Audiovisual da Semana Internacional de Música de São Paulo, mais conhecida como SIM, não é só o artista. É um homem ali. Quebrado. Mais homem do que artista.

“Ele não gostou muito da segunda metade do filme”, conta o diretor do documentário. “É quando ele começa a falar (sobre as questões que envolviam o luto e a dor que sentia pela morte do filho, Arthur, aos 15 anos). Aquilo foi muito pesado para ele. E foi possível ver na reação inicial dele, que não havia gostado. Em contrapartida, a mulher dele, Susie (Bick) gostou do que viu ”

Foi Andrew Dominik, cujo currículo nas telonas inclui a direção dos filmes O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford e O Homem da Máfia, ambos com Brad Pitt, quem ligou para Cave. Um amigo cineasta gostaria de convidar o músico para criar alguns temas para um filme que estava produzindo. Em dezembro do ano passado, Cave rebateu com a ideia de chamar o velho conhecido Dominik para acompanhar as gravações do novo disco em três meses, a partir de fevereiro.

Na época, Cave já havia criado pouco mais da metade das oito músicas que compõem o melancólico Skeleton Tree – canções como Jesus Alone e I Need You, principalmente, são completamente contraindicadas para aqueles que passam por rompimentos abruptos

“A ideia era que o filme fosse um show de Nick e da banda, algo que fosse transmitido ao vivo, em diferentes cinemas do mudo todo”, explica Dominik. A ideia logo caiu por terra.

Cave não queria ter essa pressão sobre seus ombros – ter um show transmitido ao vivo para todo o mundo, em potentes salas de cinema. E isso ainda não resolveria o outro problema. O músico se preocupava com a promoção do disco que criava. Eram temas intrinsecamente ligados à perda do filho e conversar sobre eles, mesmo tempos depois, seria penoso. O filme mostraria o processo. Tudo o que o público e a imprensa precisassem saber estaria ali.

E está. Provavelmente de uma forma jamais vista. É possível sentir o que o diretor chama de “elefante no meio da sala que todos fingem não ver”. A morte do filho de Cave paira por todos momentos do documentário. E, por vezes, é impossível fingir que ela não existe. “Como amigo de Nick, não o colocaria em uma posição na qual ele devesse falar sobre isso tudo”, conta Dominik. “Mas ele não me queria ali como um amigo, como alguém próximo. Ele queria que eu fosse diretor. E não tivesse medo de falar sobre isso.”

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